segunda-feira, 13 de julho de 2009

FINAL

San Bernardino amanheceu com uma pequena coluna de fumaça, que levava ao céu os restos da casa de Ana. Logo que desci para o café da manhã notei a comoção dos funcionários e quando sai às ruas vi, por mim mesmo, a fumaça cinza e fúnebre. Corri para a casa de Ana já esperando encontrar o pior.

Na entrada da casa, vizinhos e policiais se aglomeravam. Perguntei à vizinha, a que tinha uma venda perto da casa, o que havia acontecido. Ela viu o fogo tomando toda casa rapidamente, por causa da madeira. Ninguém sabia de Ana, nem mesmo os policiais. Eles achavam que seu corpo carbonizado estava entre os escombros, esperando para ser descoberto. “O que causou o fogo?”, indaguei a um policial. O homem respondeu desgostoso, que ainda não sabiam.

De qualquer jeito, não adiantaria saber como ela se queimou. A culpa a consumiu e fez Ana se matar desse jeito horrível. Escolheu uma morte dolorosa, mas que a purificasse de vez, de corpo e espírito. Sozinha e perdida durante a noite, com o resto de sua vida em suas mãos, deve ter se desesperado. Não soube o que fazer com a liberdade que lhe foi oferecida e se matou, selando sua vida com a do pai.

Ninguém sabia a verdade, só as mentiras construídas durantes os anos. As mortes de pai e filha seriam consideradas acidentais. Uma tragédia local, para ser lembrada como uma história pitoresca da região, um caso curioso.

Espero por Benites no hotel, com a conta fechada e as malas na recepção. Queria ir embora logo desse lugar e esquecer a sordidez do ser humano. Mesmo na guerra, onde os crimes mais bárbaros acontecem, eu nunca encontraria tamanha monstruosidade como a de Fritz, que estuprou e torturou a filha por anos. Para ele, Ana não era uma pessoa e sim uma propriedade, livre para ser usada como quisesse. Mais uma vez eu vislumbrava o lado negro das pessoas, mesmo quando não o procurava. O coronel deve aparecer a qualquer momento, por isso me despeço e prometo continuar minha história quando chegar à Bolívia. Que Deus tenha piedade de Ana, e de mim.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ILUMINAÇÃO

Ana foi tão submissa que ninguém imaginaria o final da história. Ela veio falar comigo, sem saber por que vinha. Estava tão perdida que tive de acompanhá-la de volta para casa. Não entendia minha presença, mas não recusava minhas argumentações. No caminho, ruma a sua casa, aconselhei-a a seguir sua vida, deixar o pai e ser feliz, pois ainda havia esta possibilidade. Ela dizia que não teria coragem. Eu falei durante todo o trajeto até chegarmos a sua casa. No portão, ficou sem saber o que fazer, por isso eu me convidei a entrar. Quando entramos, o velho nos esperava na sala, assistindo a televisão. Ele ficou estarrecido com a minha presença e gritou com Ana. Eu lhe disse: - Calma, senhor Fritz. Eu não vim lhe fazer mal, só vim acompanhar a sua filha para casa. Ela estava vagando, perdida. Resolvi trazê-la de volta para o senhor.

O velho pediu para eu ir embora, mas perguntei a Ana, se ela queria que eu fosse. Estava assustada, dividida e não recusou minha presença. Eu disse a Fritz: - Eu vim ajudar sua filha. Hoje é o dia de sua libertação. Ela precisa saber que eu sei a verdade dos abusos, castigos e do aprisionamento. Tudo isso acaba hoje, porque em breve você estará morto.

Eu me virei na direção de Ana e lhe falei: - Ele não pode mais te machucar, mas só você poderá se libertar.

Estendi-lhe a mão e pedi ajuda. Peguei uma almofada e ofereci a ela. Disse, baixinho: - Ele tem que ser punido pelo que fez com você. Lave você mesmo a sua honra, redima-se. Não é vingança, é justiça.

Segurei seu corpo e a conduzi até o pai. O velho pedia que Ana não fizesse, mas não tinha argumentos para lutar pela vida. Peguei sua mão com a almofada e a coloquei contra a cara de seu pai. Ela pressionou, cada vez mais. O velho tentava lutar, porém a fúria da mulher era maior. Estava excitada, tremia muito, mesmo depois de eu tirá-la de perto do corpo morto. Fritz não tinha resistido muito, já estava muito debilitado. Eu tentei confortá-la: - Não se preocupe, eles não descobrirão a verdade. Ele morreu enquanto assistia televisão.

Ela respondeu: - Ele conseguiu manchar minha inocência de novo, agora sou uma assassina.

Eu a abracei e impedi seu choro. Disse para ela esquecer tudo, ninguém descobriria a verdade. Ana ficou perturbada, a última coisa que queria é que todos ficassem sabendo dos abusos. Ela estava encurralada entre a sua consciência e a vergonha. Ligou para a polícia, avisando que o pai havia morrido tranquilamente no sofá. Eu decidi voltar para o hotel. Pedi que me procurasse se houvesse problemas. Fui embora arrumar minhas malas, afinal amanhã é o dia de minha partida. Pensei em voltar mais tarde em sua casa, mas achei melhor não, poderiam levantar suspeitas. Como será que Ana enfrentará à noite naquela casa mal-assombrada?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

AJUDA

Sentei na varanda do hotel, com um cigarro e uma cerveja. Eu fiquei olhando o lago, absorto em meus pensamentos. Estava feliz, dizendo a mim mesmo que na Bolívia minha vida seria perfeita. A guerra sempre proporciona espólios para seus participantes e eu teria o que quisesse.

Começava a cochilar quando o balconista do hotel rompeu pela porta e ma avisou que uma mulher queria falar comigo. Meu coração acelerou, pois só poderia ser Ana. Ela me esperava na frente do hotel, com uma roupa branca e cabelos soltos. Quando me aproximei, seus olhos tristes me fitaram. Ana pediu para conversar em particular, à beira do lago. Ela partiu e eu a segui, ainda meio atordoado. Andamos alguns metros até ela parar perto do pequeno píer do hotel. Ana cruzou os braços e me perguntou sobre os meus ferimentos. Eu lhe respondi, suavemente: - Vão melhorar. Ainda há esperança para mim.

Ela sorriu, satisfeita com a constatação. Não sabia que eu já conhecia a sua história, e disfarçava segurança. Não gritou pedindo ajuda, preferia ajudar a manter a mentira. Eu disse a ela: - Você é uma verdadeira heroína, Ana. Deve ser mais forte que a maioria dos homens.

Queria que ela gritasse, confessasse os abusos. Mas ela permaneceu calada. E eu não me segurei: - Seu pai falou muito de você no hospital. Disse que você é o maior amor de sua vida. Ele disse que lhe amava muito, desde que você era adolescente.

A mulher ficou perturbada. Disse que tinha que ir embora e desejou boa sorte. Antes de ela ir, ofereci: - Estou indo embora neste final de semana, por isso gostaria de oferecer um último favor. Gostaria de ajudá-la, afinal, não foi por isso que você veio me procurar?

Minhas palavras assustaram Ana. Ela pedia ajuda, embora não falasse. Eu me aproximei e ofereci minha companhia até a sua casa.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CONFISSÃO

Combinei com o jovem boliviano que partiria no final de semana para a Bolívia. Benites me levará até o aeroporto, onde eu pegarei um avião. Chegando à capital boliviana, eu devo procurar um hotel, onde um contato irá me encontrar. Tenho dois dias para fazer as malas e acertar minhas contas em San Bernardino.

Fiquei sabendo pelo gerente que Ana e seu pai haviam retornado hoje à sua casa, trazidos por um táxi de Assunção. Ele achou que eu me interessaria, já que tive meu braço quebrado pela mulher. O gerente queria ver confusão, esperava que eu me aproveitasse da situação para fazer alguma coisa contra a família. Eu, para ser sincero, não esperava que os dois fossem voltar juntos a San Bernardino. Imaginei que o velho confessaria ou que Ana acabaria entregando a verdade, com seus ataques de pânico no hospital. Fritz iria para a prisão e Ana ficaria livre.

Fiquei inconformado com a notícia, por isso precisava confirmar se o gerente dizia a verdade. Depois de tudo que descobri, não podia deixar aquela história e continuar como se não conhecesse as suas mentiras. Saí do hotel e fui até a frente da casa de Ana. Fiquei parado alguns minutos, convencido de que tinha que entrar na casa e resgatar a mulher. A casa estava toda fechada e eu imaginava como entraria. Enquanto tentava achar a resposta, Ana abriu uma janela e me encarou por alguns instantes. Ela perguntou o que eu queria. Eu lhe respondi, automaticamente: - Eu só queria saber se você está bem.

Ana corou. Confirmou seu bom estado e esperou por minhas palavras. Mas eu não tive coragem de lhe dizer nada. Eu queria consolá-la, contar que sabia de seu sofrimento, mas ela havia voltado para casa com o pai. Sua chance de contar a verdade e denunciar o pai tinha sido no hospital. Talvez os médicos não imaginassem os abusos, nem viram seus sinais, mas o fato é que ela não pediu ajuda. Eu lhe disse, esperando por uma resposta: - Ana, eu vim lhe pedir desculpas. Seu pai me convenceu de que você não é culpada pelos acidentes que ocorrem comigo. Ele me falou tanto de você, contou tantos detalhes de sua vida que me convenci. Sinto entender toda a sua vida, você é inocente.

Eu fiz uma pausa. Continuei: - Bom, vou embora. Só queria me despedir e resolver nossos mal-entendidos. Não queria que você ficasse com uma má impressão de mim. Sou apenas um homem, tentando fazer o que é correto. Às vezes me excedo, porém sempre tento me manter fiel à verdade. Desculpe se errei, mas agora terei de deixá-la.

Dei um passo atrás e lhe disse, melancolicamente: - Preciso ir embora, espero que você e seu pai possam viver em paz, juntos, pelo resto de suas vidas. E tenho certeza que vocês ainda viverão muitos anos juntos, pois o doutor é forte. Vai viver para sempre.

A mulher ficou confusa, mas pareceu entender o que eu lhe dizia. Ela desviou o olhar e fechou a janela, encerrando nossa conversa.

terça-feira, 7 de julho de 2009

UM OBJETIVO

Benites se aproximou do lago, junto ao agente boliviano. Achei melhor conversar reservadamente, em terreno aberto e longe de pessoas curiosas. O tempo estava aberto, pela primeira vez em dias. A conversa com o jovem enviado pelo governador de Santa Cruz, principal adversário de Evo Morales, correu bem. O rapaz era muito dedicado e realmente se importava com a causa. Não devia ter mais de 25 anos, provavelmente filho de alguém importante. Falava em libertar o povo da tirania e clamava por democracia e justiça. Tive vontade de rir pensando no rapaz, que realmente acreditava na justiça e liberdade concebida através de um golpe de estado.

Ele falou longamente explicando a luta na Bolívia e me ofereceu um bom salário para ajudar o serviço de inteligência da província rebelde. Benites olhou-me com olhos tristes, implorando para eu não aceitar. Parece que dizia: “nós já sofremos demais. Estamos velhos e precisamos descansar. Morra em paz, Vargas”.

Mas estou decidido a continuar. Entregar-me a um objetivo, seja ele qual for, é a única coisa que me confortará pelo resto da minha vida. “Se parar, eu morro”, pensava. Apertei a mão do boliviano e selei o acordo. Minha vida, agora, faz sentido.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

RECOMENDAÇÕES

Benites avisou: - O boliviano chega hoje. Amanhã bem cedo nós vamos aparecer em San Bernardino para conversar.

O momento que tanto esperei está chegando. Em breve partirei para lutar contra as forças de Morales e Chávez. Mas depois que eu partir o que acontecerá com a pobre Ana? Seu pai ainda lhe fazia mal, envenenando sua vida. Enquanto o velho não morresse, ela não estaria livre. A vida de Ana está presa a de um cadáver, que se recusa a morrer.

No entanto, sinto que já me envolvi demais. Quebrei meu braço e o resto de decência que havia em mim. Não quero mais me envolver na história.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O MUNDO DELA

Tenho um fraco pelos olhos femininos, tristes, profundos e melancólicos. O sofrimento que transmitem é belo. Ana tinha esse olhar, que me pedia ajuda. Apesar de eu nunca resistir a esses pedidos, a história tinha ido longe demais e já ameaçava minha viagem para a Bolívia.

Eu não sei onde estava com a cabeça quando me joguei na frente do carro de Ana. Voltava da minha caminhada matinal quando vi o carro dela retornando da cidade. O veículo se aproximou e pude ver a mulher dirigindo concentrada. Ela virou o rosto na direção do pai, que estava no banco de trás. Naquele momento eu me entreguei a uma idéia, de que poderia conhecê-la se ela tentasse me atropelar. No entanto, eu não pretendia que ela me acertasse. Foi uma decisão estúpida, com certeza, mas seus olhos não me deixavam em paz.

Agora, estou com o braço quebrado e cheio de dúvidas, que só Ana pode responder. Eu descobri parte da história, mas o final pertence a ela.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

REVELAÇÕES

A vida de Ana, como filha abnegada, era um embuste. Ela sempre foi uma prisioneira, escrava dos desejos do pai. Para disfarçar sua ausência, o velho contou aos seus conhecidos que ela tinha ido estudar no exterior. Enquanto todos achavam que estava na Europa, na verdade, envelhecia trancada dentro do seu quarto, sem a possibilidade de resgate.

Eu perguntei: - O que mais você fez a ela, além de prendê-la? Conte-me dos estupros.

O velho calou, afastando o rosto da luz, protegendo-o na escuridão do quarto. Eu imaginava que o cárcere não era a única pena que Fritz empunha a sua filha, porém seu silêncio confirmava meus piores temores. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Insisti: - Confesse, Fritz. Eu sei o que você fez com Ana todos esses anos.

O velho respondeu secamente: - Não sabe de nada e não entende nada. Só eu e Ana sabemos o que aconteceu nos anos em que ela ficou comigo, em que eu cuidei dela. Acredite no que quiser, seu doente. Me mate se quiser, porém essa é a verdade.

As palavras de Fritz me fizeram entender. Jamais confessaria, mesmo que eu o torturasse. Ele preferia morrer, antes de revelar a sua verdadeira face. Antes de tudo era um narcisista, pensava na sua imagem. O velho podia viver com o cárcere, mas não com o incesto. Ele não confessaria, porém Ana ainda poderia revelar o final da história. Mas não esta noite.

Vesti minhas roupas e sai do hospital. Deixei o velho vivo, sozinho com seus arrependimentos. Rondei o resto da noite por Assunção, tentando entender. Mas será que alguém como Fritz poderia ser compreendido? Infelizmente, não. O ser humano nunca encontrará a razão do mal. Liguei para Benites pela manhã, acordando-o. Combinei encontrá-lo no hotel Granados para um café da manhã. Ele pagou o café e me levou de volta a San Bernardino. Durante a viagem me perguntou se eu gostaria de adiar a missão na Bolívia. Apesar do braço quebrado, disse que não desistiria. Aquilo era só um contratempo. O coronel indagou sobre a colisão. Respondi, friamente: - Foi mais um dos acidentes da vida. E ela parece ser cheia deles, sem motivo algum.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

POBRE GAROTA


Enquanto segurava o travesseiro contra o rosto do velho pensei: “é fácil matar”. O ato em si não é complicado, o mais difícil é admitir a insensatez e se deixar levar pelas emoções, abraçando um caminho sem volta. As circunstâncias às vezes nos impelem, nos empurram nos braços do inevitável. O tiro na cabeça do assassino de Júlia foi uma dessas circunstâncias especiais. Mas esse caso tem a ver com justiça, não vingança. E por justiça eu também segurava o travesseiro no rosto de Fritz. Eu soltei o travesseiro, deixando o velho respirar novamente. Eu queria respostas, por isso disse-lhe: - Eu te deixo viver se me contar o que aconteceu com Ana. Diga-me a verdade, pois eu saberei se mentir. Eu já sei de tudo.

Ameacei sufocá-lo novamente. O velho entendeu que eu iria torturá-lo até ele confessar. “Proteção” foi a primeira palavra que pronunciou. Começou a falar baixinho, justificando o injustificável. O mundo distorcido de Fritz emergia, alterando a verdade, a vida em família e o amor. Ele começou dizendo que Ana se revoltou com a morte da mãe e que quis estudar no exterior. Como pai, quis proteger a garotinha que não conhecia nada além de San Bernardino e Assunção. Ela era frágil demais, não suportaria as decepções da vida e das pessoas. Por isso, ele achou melhor trancar a garota em casa. Fritz dispensou a empregada e passou semanas confinado com a filha dentro de casa. Ele argumentou: - Eu fiquei o tempo todo ao seu lado, explicando porque a mantinha presa. Ela se tornou tímida, pois entendeu os perigos do mundo. No final, Ana entendeu o que fiz por ela.

Eu lhe disse: - Você a forçou a acreditar. Mas isso não quer dizer que algum dia ela acreditou em suas mentiras. Ana fingiu para te enganar, para que não a punisse mais. Não argumente, só confesse. Onde você a mantinha?

Fritz respondeu friamente: - Eu a prendia no quarto. Tapei as janelas, coloquei um trinco em sua porta e tranquei. Abria a porta só para alimentá-la e trocar suas roupas.

O velho finalmente dizia a verdade. Temi pelo que contaria.

terça-feira, 30 de junho de 2009

OS MALES DO MUNDO

O velho estava acuado, sem forças para lutar. Nem ao menos tinha força para gritar e pedir ajuda. Foi tão debilitado pela vida, e pelo acidente recente, que não reagia. Eu poderia matá-lo com facilidade, mas ele ainda não deveria morrer. Eu não tinha provas, nem confissões. Só tinha minha antipatia pelo homem e suspeitas. Pressionei o velho: - Confesse, morra com a consciência tranqüila. O que você fez de sua vida?

O homem ficou confuso, balbuciando algumas palavras sem nexo. Eu coloquei minha mão direita no seu peito, próxima ao pescoço. – Você está velho e doente, eles acreditarão que morreu durante o sono. Confesse e se salve. Sua vida, pela verdade. Por que sua filha tem tanto medo?

O velho esbravejou: - Eu nunca a machuquei, só a protegi. Sempre a guardei de todos os males do mundo.

Ele continuava mentindo e eu, impaciente. Peguei o travesseiro e deitei contra seu rosto.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

PROCEDIMENTO PADRÃO

O hospital ficou tranqüilo depois da meia-noite. Não havia enfermeiros andando nos corredores e os plantonistas, tentavam dormir. A porta do quarto estava fechada e as luzes apagadas. Só a claridade do corredor, escapando pela fresta da porta, iluminava os pés das duas camas. O velho dormia ao meu lado, ou pelo menos fingia estar. Levantei, coloquei a tipóia no meu braço esquerdo e fui até a sua cama, sorrateiramente.

Aproximei-me do corpo do velho, que à meia luz, parecia morto. Ele percebeu minha aproximação e perguntou-me, com dificuldade: - Não se aproxime, seu maldito. Você tentou me matar no pântano, queria que eu me afogasse. Quem é você?

Eu sorri e gracejei: - Eu sou o passado que busca pela verdade.

O velho se calou. Por isso, continuei: - Eu sei tudo sobre você, Fritz. Sua vinda para o Paraguai, sua mulher morta e sua filha. Você tem razão quando diz que eu tentei te matar naquele pântano. Ou você irá argumentar que não merece morrer?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

OBSERVAÇÃO

Cheguei à estrada depois de me arrastar para fora do charque, imundo e furioso. Meu braço já devia estar infectado com alguma doença tropical e eu estava ali, perdido no meio do nada. Um caminhão surgiu no horizonte, me viu e parou para ajudar. O caminhoneiro ajudou Ana a retirar o seu pai da água fétida e os dois carregaram o velho até caminhão. Como ela ainda tinha forças, eu não sei.

Depois de quase uma hora de viagem até o hospital, fomos atendidos na unidade de emergência em Assunção. Engessaram meu braço e me colocaram em observação por 24 horas. O velho não havia sofrido nada, só tomou alguns antibióticos por prevenção. Ana que no começo se mostrou tão calma, ficou tão nervosa com a atenção dos médicos e policiais, que quase teve um surto. Ela primeiro emudeceu e depois chorou copiosamente. Os médicos tentaram acalmá-la, mas acabaram tendo que lhe dar uma dose generosa de tranqüilizantes.

Eu e o velho fomos colocados no mesmo quarto, em observação.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O PÂNTANO


O carro seguia constante pela estrada. Ana não descuidava da direção, apesar do nervosismo. Consultava os retrovisores e a velocidade maquinalmente, porém minhas reclamações abalavam seus pensamentos. O velho gritou, pedindo que respeitasse sua filha. A mulher, ouvindo o tom áspero do pai, se contraiu com medo, mais aflita do que com os meus gritos raivosos. Eu a pressionei: - Você devia dirigir olhando para frente e não para o banco de trás.

Ela se virou para mim. Seus olhos perderam vagarosamente o torpor, deixando-os renascer. Ana tentou dizer alguma coisa, mas sua fala não veio, pois acabou se assustando com um caminhão que vinha no sentido contrário. O carro saiu da estrada, destruiu uma cerca e acabou no charco, verde e lamacento, que cercava a estrada. O impacto com a água me atordoou, mas felizmente o cinto de segurança me protegeu. Tirei-o e procurei o corpo de Ana ao meu lado. Ela tentava se soltar ao mesmo tempo em que buscava salvar o pai. Na sua confusão, entre a própria vida e a do velho, ajudei-a se livrar do cinto e a empurrei para fora do carro, para salva-la. Ela gritava pelo pai enquanto saíamos pela porta, mas eu lhe disse: - Nós não vamos conseguir alcançá-lo, o carro está afundando rápido. Precisamos sair daqui.

Meu braço esquerdo doía e nossos pés mal tocavam o fundo lamacento do charque. Sem poder usá-los, lutei mesmo assim pela minha vida e a de Ana. Ela conseguiu desvencilhar-se do meu braço e voltou ao carro, tentando salvar o pai. Para nossa surpresa, ele já havia conseguido se livrar do cinto e com a ajuda da água, vinha boiando em direção a porta. Ana o ajudou a sair, enquanto eu tentava sair daquele pântano.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

BATIDA

Fui atropelado esta manhã pelo carro de Ana. Eu voltava de uma das minhas caminhadas, quando ela, trazendo seu pai de um exame médico, bateu em mim. Cai, estatelado no chão, perto da entrada de sua casa. Ana saiu do carro e veio ver se eu estava bem. Foi a primeira vez que ouvi sua voz, e ela era doce e tímida. Ficou preocupada comigo e se ofereceu para me levar até a cidade. Quando cai, senti uma dor no braço esquerdo, onde havia se apoiado todo o meu corpo. Ela me tocou e constatou o pior, eu precisava realmente ir a um hospital. Achei melhor aceitar o seu socorro para ir logo. Entrei no carro, do lado do carona. O pai de Ana estava sentado no banco de trás, bem atrás de mim. Ela apresentou o velho. Eu me virei para cumprimentá-lo, e ele acenou com cabeça: - Mucho gusto!

Ana não se apresentou, por isso tive de perguntar seu nome. Ela respondeu, envergonhada. Depois das apresentações, os dois, nem pai e filha, falaram mais nada. Eles não me fizeram uma pergunta, nem trocaram nenhuma palavra. Ana dirigia concentrada e eu não conseguia ver o velho. Eu decidi arriscar e puxei conversa. Comecei a perguntar sobre a casa e o carro, mas ela respondia monossilabicamente, sem dar espaços para conversas. Como ela não respondia, fui mais agressivo. Segurei meu braço quebrado e perguntei se não tinha me visto na calçada caminhando. Ana ficou nervosa, pediu desculpas. O pai dela se inquietou no banco de trás. Parece que saíram do coma.

terça-feira, 23 de junho de 2009

NOITES PAULISTANAS

Apesar de eu reclamar das noites, tenho dormido bem, um verdadeiro sono dos justos. Júlia foi embora quando apertei o gatilho em São Paulo. Ela não povoa mais meus sonhos, só minhas lembranças. Senti que a justiça foi feita e seu espírito podia descansar em paz. Eu fui o único que me levantei por Júlia, ainda que não tenha sido em vida. Mas lutei por ela, provei que não era descartável. Minha consciência está tranqüila, e não devo mais nada à garota. Depois que fiz justiça com o monstro que a assassinou, e perdi minha liberdade por isso, vou fazer o que quiser com o resto da minha vida. E minha vida ia para Bolívia, lutar.

Eu espero o encontro com o agente boliviano, membro da resistência. Decidi aumentar meus exercícios físicos e diminuir o número de cigarros. O momento é de grande concentração, não posso me permitir errar.

Durante as minhas caminhadas ainda observo a casa de Ana. Nenhuma novidade, apesar de eu ter aumentado a minha atenção. Perguntei sobre a família dela para algumas pessoas, muito discretamente, mas ninguém sabia de nada. A clausura de Ana era total, um verdadeiro cárcere monástico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

NOVIDADES


Boas notícias! Benites me ligou esta manhã confirmando o interesse dos bolivianos pelos meus serviços. O coronel se gabou, dizendo que havia falado muito bem de mim. Eu agradeci e perguntei os pormenores.

Um encontro seria necessário para fechar o acordo. Benites e os bolivianos acharam melhor acontecer no Paraguai, em San Bernardino. Eles viriam até mim e acertaríamos a história toda. Acho que será na próxima semana, mas eles ainda avisarão. Paciência é necessária agora, para manter a cabeça no lugar. A revolução se aproxima, eu posso sentir. As massas ao fundo, gritam e pedem as cabeças dos vermelhos. Uma chance de felicidade nasce em mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

ESPERANDO

Os finais de semana em San Bernardino são mais tristes nessa época do ano. O hotel fica quase vazio, com apenas três funcionários trabalhando. Às vezes surgem outros hóspedes, mas parecem fazer à mesma coisa, se esconder. Não querem saber de conversa, se trancam nos quartos e só saem para caminhar perto do lago. Eu procuro não enlouquecer, lembrando sempre das promessas da Bolívia. Em breve, eu sairei desse inferno pacífico, rumo a um caldeirão de problemas. A idéia me conforta e dá força para agüentar meus dias finais em San Bernardino.

Ainda rondo a casa de Ana. Desta vez vi o carro da família, um Ford da década de setenta. Não observei muito mais, para não levantar suspeitas. O povo das cidades pequenas fala demais e estão sempre observando. A última coisa que quero é me tornar alvo de suspeitas da população local. Apesar disso, Ana e seus mistérios não saem da minha cabeça. Conversando com os moradores não consegui descobrir muito mais, apenas que sua mãe morreu ainda na década de 70. Depois disso, ela foi para a faculdade e passou longos anos no estrangeiro. Quem me contou a história de Ana foi a minha principal fonte na cidade, o gerente do hotel. Ele era o único que sabia os detalhes mais íntimos dela, mas ainda sim,eram poucos.

Eu, com essa minha mania de tentar entender os outros, passava horas tentando decifrar a vida de Ana. Seria o amor tão grande assim entre os dois, para fazer uma filha desistir da vida no estrangeiro para cuidar do pai? Ou seria outra coisa que a fazia esquecer que era uma mulher bonita e desejável, mofando dentro de casa com um pai semimorto?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

OLHOS SINCEROS

Animado com a possibilidade de ir à Bolívia, ajudar na “liberação” de Santa Cruz, passei a ler tudo sobre o país. Comprei jornais, usei a vagarosa internet do hotel e até consegui alguns livros sobre a guerra entre o Paraguai e Bolívia. A situação no país piora a cada semana. Evo Morales já descobriu um plano para assassiná-lo, comandado pelos políticos do departamento de Santa Cruz. O plano usava assassinos estrangeiros, o que gerou uma trapalhada internacional. O governo boliviano mandou tropas para o estado, supostamente para reforçar a segurança na fronteira com o Brasil, depois que uma vala com seis brasileiros mortos foi achada. A Bolívia está à beira do abismo, com o separatismo e as potências locais empurrando-a cada vez mais para a beirada.

Não parava de chover em San Bernardino e o céu permanecia sempre cinzento. Apesar de o inverno no Paraguai estar no ápice, à temperatura não abaixou muito. O mormaço tropical não deixava esfriar os calores da terra. Por isso, adotei um guarda-chuva e uma jaqueta leve em minhas caminhadas. Passo na frente da casa de Ana todos os dias. Eles moram não muito longe do hotel e, apesar de eu passar por lá quase todas as manhãs e em algumas tardes esporádicas, nunca consegui vê-los. Nem o pai nem a filha. Os locais disseram que eram sós, vivendo em uma casa simples sem nenhum empregado. Em uma vendinha próxima, a dona do lugar me ofereceu docinhos locais e um pouco mais da história de Ana. Segundo a velha índia, ela nunca saia de casa sem o pai e comprava na venda ocasionalmente. Tinha um carro velho, que usava para ir à cidade de vez em quando. Falava mal o espanhol, com um forte sotaque alemão.

Comprei um doce de leite e continuei minha caminhada sem rumo. Pensava em Ana, é claro. Ela tinha uma mãe morta e um pai quase lá. Sempre viveu por aqui, mas mesmo assim, nem consegue falar o idioma local. Os olhos de Ana não me enganaram naquele dia à beira do lago. Eles prometiam mistério e foram sinceros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

PERGUNTAS E MENTIRAS

Resolvi incluir a casa de Ana no percurso das minhas caminhadas diárias. Por mais que eu tentasse não me envolver, minha consciência não me deixava em paz. E se seu pai fosse realmente um criminoso de guerra? Não foi difícil descobrir o endereço da família com o gerente do hotel, que também me contou o nome do pai: chamava-se Fritz. Ele guardava segredos, sua velhice decrépita era prova. Ninguém tão velho poderia ser inocente. Ainda mais ele, que mal podia respirar. Não sou religioso, mas seu estado devia ser uma punição divina pelos crimes que não pagou na terra.

Fritz poderia ter falsificado seu nome e inventado uma nova identidade. Fugir de sua vida antiga na Alemanha teria sido a parte fácil do acobertamento de seus crimes, o difícil seria escondê-los pelo resto de sua vida. Eu mesmo usava um nome falso no hotel. Havia me registrado com nome de Alberto Aparecido do Nascimento e pago em dinheiro, para não deixar rastros. Inventei também uma história de cobertura, dizendo aos funcionários do hotel que era apenas um fazendeiro viúvo de Corumbá que estava passando uma temporada em San Bernardino, onde eu e minha falecida esposa havíamos tido nossa noite de núpcias. Contava aos funcionários sobre meu casamento feliz e de meus filhos ingratos, que estavam sempre tentando me roubar. Os empregados sentiam pena de minha história e não desconfiavam da mentira. Simpáticos, criticavam os filhos da nova geração, que não respeitam mais os pais. – Maldita juventude, repetiam eles.

No entanto, sabia que essa história não se sustentaria por muito tempo. Logo teria que me mudar também, pois as pessoas desconfiam, mesmo quando convencidas. Fritz deve conhecer essa verdade, por isso vive recluso. A história permanece nebulosa, mas só uma pergunta realmente me interessa: Ana é uma filha caridosa ou uma prisioneira?

terça-feira, 16 de junho de 2009

UM OLHAR ENIGMÁTICO

As conexões de internet no Paraguai são muito ruins. Consultar um simples e-mail é um ato de paciência e controle do temperamento. A vontade é de socar o único computador do hotel que não oferece nenhuma velocidade. Apesar disso, o tédio e a curiosidade me fizeram pesquisar um pouco mais da história de San Bernardino. Não havia muito, a não ser um link sobre criminosos de guerra nazistas que tinham fugido para a América do Sul. Fiquei surpreso ao saber que até o carrasco Mengele tinha passado algum tempo na cidade. Desliguei o computador, mas fiquei com a história na cabeça.

Não demorou muito para eu lembrar da mulher que passeava com seu pai à beira do lago. Divaguei e imaginei o velho fugindo do julgamento de crimes de guerra, escapando de Berlim para a pacata San Bernardino. O pai de Ana tinha uma expressão de superioridade em seu rosto, mas não era nojo, era reprovação à cultura local. Uma cultura que eles não achavam adequada aos seus modos civilizados, nórdicos, puros, ou qualquer outra bobeira racial.

Ana ainda me intrigava, seu olhar era poderoso demais para ser esquecido. Ele penetrou em mim e ficou guardado. Antes de sair desse lugar, gostaria de conversar com ela, ouvir sua voz. Será que seria tão poderosa quanto seu olhar?

domingo, 14 de junho de 2009

PROCURANDO POR UMA NOVA VIDA

Os dias parecem mais longos em San Bernardino. Faço exercícios, leio e dou longas caminhadas em volta do lago, porém estou sempre entediado e com tempo sobrando. Tento matar as horas de todas as formas, mas elas resistem. Procuro arranjar assuntos com os funcionários do hotel e até com estranhos na rua, só para não enlouquecer, no entanto, não se pode conversar para sempre sobre as futilidades do cotidiano.

Estive pensando em me mudar depois de uma conversa que tive com Benites. Eu liguei só para bater papo e esquecer do marasmo, mas ele acabou revelando um telefonema que poderia mudar minha vida. O coronel recebeu a ligação de um boliviano que representava o departamento de Santa Cruz, uma região rica e separatista da Bolívia. Ele disse que o homem lhe ofereceu um trabalho para treinar a militância oposicionista ao presidente Evo Morales. Os governantes do departamento pensavam alto: milícias armadas e até o assassinato do chefe de estado.

Benites recusou a oferta, por ser muito perigosa, mas eu me ofereci para o emprego. Ele achou graça, mas quando percebeu que eu falava sério, tentou me dissuadir. Avisou que era arriscado demais e que os golpistas estavam destinados ao fracasso. Eu insisti. O coronel me aconselhou: - Vargas, você deve ter enlouquecido depois que ficou velho. Justo você, que sempre soube apostar nos vencedores. Eu te digo a verdade, esses golpistas vão se dar mal e se te pegaram junto com eles... Aproveite o resto de sua vida, fique em San Bernardino.

Não me importei com seus avisos e pedi que ele me arrumasse o emprego. Benites, contrariado, concordou em me ajudar. Prometeu ligar quando tivesse novidades.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

CAMINHANDO PARA O LAGO


A idéia de morrer nesse lugar, se tornou mais triste após um acontecimento. Estava conversando com o gerente do hotel, na frente da hospedaria, quando uma bela mulher conduzindo um idoso em uma cadeira de rodas passou por nós, rumo ao lago. Os dois pareciam estrangeiros, mas ela dirigia o velho pela rua com familiaridade, como se fizesse o caminho há muitos anos. Quando os dois desapareceram na curva, rumo ao lago, o atendente fofocou a história da mulher e de seu pai. Eram alemães que chegaram depois da segunda guerra mundial, procurando abrigo entre os colonos germânicos locais. A família não morava muito longe, mas era discreta e poucas vezes veio ao hotel. O velho era médico e clinicou na região por muitos anos até sua mulher morrer de câncer. Depois da tragédia, ele e sua filha se tornaram reclusos. O gerente comentou gracejando: - Eles reapareceram depois que o pai ficou velho demais para andar. Ele resolveu se mudar definitivamente para San Bernardino para morrer, mas nunca morre. È um vaso ruim.

Com um sorriso malicioso, o gerente mostrou sua animosidade com a família. Eu percebi, mas preferi não entrar no assunto e continuei a conversa em outra direção até ele resolver ir trabalhar. Eu fui até o lago, esperando ver a mulher novamente. Encontrei o velho e sua filha calados, observando as belezas do lago em silêncio. Ela me viu chegar e, nesse instante, trocamos olhares. Fiquei disfarçando, esperando que algo acontecesse. Tive a sensação boba de que algo mágico poderia acontecer e que talvez, ela falaria comigo. A mulher tinha belos olhos azuis, profundos e misteriosos. Um longo cabelo louro e talvez 50 anos. Eu esperei, mas ela virou a cadeira de rodas do pai e foi embora. Eu continuei observando o lago.

Houve uma época em que a felicidade, mesmo no meio da violência, me parecia possível. Agora, velho e repousando em um lugar pacifico, nunca fui tão descrente da alegria. Estou sozinho, exilado e com uma saúde de ferro. Nem a morte quer me fazer companhia.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

SOSSEGO MORTAL

O hotel em que estou hospedado é muito interessante. Foi construído em 1888 e até seus móveis guardam muitas histórias. O atendente, em um momento de descontração e tédio, me mostrou a curiosa atração da suíte de lua de mel da hospedaria: um armário onde os casais de várias gerações gravaram juras de amor. O móvel está todo retalhado, com inscrições até dentro das gavetas. Passados tantos anos, muitos dos casais eternizados já estão mortos, ou separados, porém seu amor ficou gravado na madeira, para os supersticiosos das novas gerações.

O atendente também mostrou as fotos da família que construiu o hotel. Eram alemães que ganharam muito dinheiro no Paraguai e resolveram investir no sossego que o lugar podia oferecer. Os paraguaios gostaram da idéia e começaram a construir casas de veraneio no lago, junto às casas dos alemães. Seguiram o progresso e a suposta civilização. No entanto, as fotos me chamaram atenção foram as de uma mulher, loira e alta, que posava ao lado de aviões, armas e tigres. Uma deusa nórdica perfeita, descendente de alemães, mas nascida no Paraguai. Segundo o atendente, ela foi enfermeira durante a guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia, e também pilotou aviões e criou tigres. Ele disse que a mulher aventureira enlouquecia os homens, porém nunca aceitou ser controlada. Morreu sozinha, abraçada com seus dois tigres de estimação. Perguntei ao atendente: - Ela experimentou uma vida plena, era livre, mas será que foi feliz? Ele respondeu sorridente: - Devia ser, porque morreu louca e sozinha, mas ainda sim, cheia de dinheiro...

A história dela me parecia familiar demais e vi minha vida alinhada com a sua. Será que também morrerei sozinho e louco, nesse lugar pacifico e belo, recebendo uma pensão pelos meus tempos de serviço na inteligência brasileira?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O HOTEL DOS ALEMÃES


A viagem para o balneário não foi longa. Peguei um ônibus na rodoviária de Assunção e um táxi velho até o hotel, à beira do lago. O coronel Benites me recomendou uma hospedaria muito antiga no balneário. Existe desde o final do século 19, quando a região ainda era dominada por colonos alemães. O hotel tinha a arquitetura germânica e seu nome desenhado em letras góticas. O clima nublado, a vegetação e o ar me lembraram o bucolismo rural da Europa. Os alemães encontraram um belo esconderijo neste lugar, um final de mundo, escondido no meio de uma floresta.

Já estou aqui há alguns dias, já instalado e com algum reconhecimento da região. San Bernardino é um balneário para os ricos de Assunção. No verão eles lotam o lugar, cheio de mansões e restaurantes da moda. Mas agora, no nublado inverno paraguaio, ninguém aparece e os hotéis e índios, que ficam vendendo bugigangas para os turistas, ficam à toa. O lugar, apesar do atual clima, é bonito. Muito calmo, tanto que à noite, eu posso ouvir as ondas do lago quebrando nos barrancos e os insetos fazendo barulho no mato.

Desde a minha fuga de São Paulo, não me sentia tão seguro. Benites estava certo, a capital poderia me denunciar. Aqui escondido, longe da agitação de Assunção, me sinto protegido, guardado pela distância com a civilização. Tão distante que às vezes parece que o tempo para e os dias não passam nunca. Confesso que estou um pouco entediado e logo terei que me ocupar com algo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O PECADO DOS OUTROS


Foi a providência que me fez encontrar com o coronel Benites, dirigindo um táxi em Assunção. Uma noite, voltando de um bar no centro da cidade, peguei um táxi rumo ao meu hotel. Falando um espanhol tranqüilo, o taxista moveu o carro. Conversamos um pouco, até que reconheci sua voz. Quando ele se virou, tive certeza que era o coronel que eu tinha conhecido durante os anos do Condor na América do Sul. Benites me reconheceu e ficou alegre com o encontro. Enquanto ele me levava ao hotel, lembramos dos velhos tempos e especialmente de uma viagem a Buenos Aires nos anos 70. Naquela época, os serviços de inteligência dos países sul-americanos cooperavam e abatiam, um por um, os grupos comunistas da região. Caíram todos, até os que não eram a favor da violência.

Na época do regime militar de Stroessner no Paraguai, o coronel vivia confortavelmente com sua família em Assunção, sendo bem pago para atuar no combate aos inimigos do ditador. Quando militares derrubaram o governo, Benites percebeu que Stroessner não iria sobreviver e por isso, resolveu ajudar os golpistas. Mas ele não acabou sendo recompensado pelo ato, como me contou: - Pensava em ser general, viver tranqüilo o resto da vida. Uma boa aposentadoria e uma casa no interior.

Infelizmente sua traição compensou e os golpistas resolveram o afastar. Os militares paraguaios ofereceram uma dispensa honrosa e sua aposentadoria, como coronel. Hoje em dia, ele me explicou, dirige o táxi para terminar de criar os filhos e também para fugir das cansativas conversas da esposa. Quando chegamos ao meu hotel, o coronel saiu do carro para apertar minha mão. Não cobrou a corrida e me deu um cartão seu, para caso eu precisasse de alguma coisa. Antes de partir, disse, baixinho: – Se está aqui para se esconder, está fazendo errado...Vá para longe, meu amigo. Na cidade seus inimigos ainda podem encontrá-lo. Devia pensar em um lugar calmo, como San Bernardino.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

RECOMEÇO

Tenho medo das noites neste país. São calmas demais, sem trânsito. Aqui, o silêncio noturno inspira reflexões e traz a tona memórias antigas. Mesmo em Assunção, onde me escondi por quatro meses, tinha essa mesma impressão do Paraguai. A capital é uma cidade agitada, mas ainda assim sua noite é serena, reflexiva. O tempo parece cessar.

Aqui em San Bernardino, as noites são piores. Estou à beira do lago Ypacaraí cercado de árvores, silêncio e bucolismo. A paisagem e o tédio convidam as lembranças, mas tudo que quero é esquecer e recomeçar uma nova vida, livre do passado. Quem me recomendou a mudança foi um velho amigo que encontrei por acaso, nas ruas da capital. Ele me aconselhou a vir ao balneário de veraneio San Bernardino, pois o inverno já chegou ao Paraguai e, nessa época do ano, as casas da região ficam esquecidas, esperando pelo próximo verão. Seria um lugar tranqüilo, onde ninguém me reconheceria.

Eu decidi aceitar o conselho e me afastei da capital. Arrumei minhas malas e vim para o balneário procurando me esconder melhor, mas não sabia que aqui estaria totalmente a mercê de minhas lembranças. Tenho medo das noites no Paraguai porque, com elas, vem a solidão.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O TRISTE FIM

Juntei todas as informações do caso de Júlia e coloquei em uma pasta. Deixei-a organizada e bem apresentável para que impressionasse a vista. Acrescentei uns recortes de jornais aos relatórios dos casos oficiais. Estava tudo pronto, mas em minha consciência só restava uma dúvida: seria mesmo o assassino de Júlia ou só outro predador? Infelizmente eu nunca conseguiria achar provas de que ele realmente cometeu o crime, para provar materialmente o caso. Eu estava convencido de que só uma confissão confirmaria a história toda. Como na época do serviço, não poderia me ater só às provas, mas sim aos fatos para produzir um significado.

Nesta quinta-feira, eu, com todos os dados do suspeito, fui atrás dele. Seu nome é Pedro e trabalha em uma agência de publicidade da Vila Madalena. Peguei a mesma carteira falsa de policial que havia apresentado a colega de Júlia do supermercado e mais uma vez me disfarcei de investigador da polícia civil. Estava de terno e gravata, sapatos encerrados e revólver na cintura. Chamei Valdir e pedi que me levasse ao emprego do suspeito. Já tinha levantado algumas coisas sobre sua vida, como endereços e telefones, mas teria que blefar em algumas partes. Fui confiante da minha história, pois só isso o faria confessar e finalmente dar paz a Júlia. A República estava condenada, ma pelo menos eu poderia compensar por uma injustiça cometida.

Cheguei ao emprego de Pedro no final da tarde. Fui a secretária e pedi para chamá-lo, me identificando como policial. Passados uns cinco minutos apareceu Pedro, bem vestido e de cabelo arrumado. Cumprimentou-me e já quis logo ir sabendo do que se tratava. Eu estava usando óculos escuros e suavizei minha voz, para ele não se lembrar de mim. Pedi para irmos a um café que havia na frente da agência, para conversarmos em particular. Ele concordou. Atravessamos a rua, pedimos dois cafés e nos sentamos em uma mesa de canto, perto de uma janela. Eu disse que estava investigando a morte de prostitutas na região do centro. Mostrei a ele o dossiê que tinha, inclusive com a sua ficha policial e com as fotos da sua antiga prisão. Antes de ele falar algo eu lhe disse que tinha muitas testemunhas, garotas de programa que haviam sido agredidas por ele. Ele negou prontamente, disse que tinha não tinha nada a ver com os assassinatos. Eu perguntei sobre as prostitutas e ele confirmou que freqüentava as mulheres da região, mas negou as agressões e as chamou de “ladras”.

Blefei mas um pouco, falei do corpo que apareceu em 2007 e que nele havia provas materiais do assassino. Fui vago sobre o assunto, mas o intimidei. Perguntei se ele tinha álibis e ele disse que queria consultar um advogado. Eu comentei. - Você está bem encrencado e isso vai acabar fazendo a maior bagunça. Eu vou mandar uma intimação para a sua casa e lhe indicar para o delegado como principal suspeito. Quem sabe não vasa para a imprensa...

Ele perguntou. – Porque tantas ameaças? O que você quer?

Respondi friamente. - Dinheiro.

O homem ficou pasmo com a minha resposta rápida. Pensou por alguns instantes e perguntou quanto eu queria. Eu sorri e disse. – O pessoal da delegacia quer R$ 50 mil. Sabe, para abafar o caso e levar a investigação em outra direção. Uma que não de em nada.

Pedro parecia se tranqüilizar. Mas eu continuei. – Mas tem mais uma coisa que você tem que fazer. Para te ajudar, eu preciso saber quantas garotas você matou?

Ele ficou sério e disse que não havia matado ninguém, que tentaria arranjar o dinheiro, mas só para não ser prejudicado. Eu dei risada e perguntei. – Se você é inocente, não pagaria. Vamos me diz, quantas foram? Duas ou três prostitutas?

Manteve a postura e repetiu a mesma história. Olhou para os lados e ficou procurando por mais observadores. Acho que ele ficou desconfiado que talvez eu estivesse usando escuta e tudo poderia ser uma cilada da polícia.

Mandei-o pagar a conta e pegar seu carro. O primeiro pagamento deveria ser feito naquele momento. Pedi pelo menos R$ 5 mil. Ele tentou negociar, mas eu fui irredutível. Disse que pegasse o carro logo, para podermos arranjar logo o dinheiro, pois eu tinha policiais trabalhando comigo e que eles queriam o pagamento. Pedro entrou na agência e depois de uns quinze minutos saiu e encostou o carro. Eu entrei e já perguntei onde ele arranjaria o dinheiro. Ele pensou alguns segundos e disse que passaria primeiro no banco e depois pegaria o resto em casa. Comecei a conversar com ele. – Não vamos nos demorar muito. Quero resolver esse assunto rápido. Daqui um tempo vou te ligar para você fazer outras entregas de dinheiro. Depois de hoje, fique preparado, porque vamos querer esses R$ 50 mil bem depressa.

Ele não respondeu e eu resolvi perguntar novamente sobre as mortes. – Pedro, eu ainda preciso saber sobre as mortes. Quantas você matou?

Pedro voltou com a mesma história e disse não tinha feito nada. Eu falei. – Você não vai ficar insultando a minha inteligência. Eu sei que foi você. Quem sabe eu não tiro outro proveito de você. Sabe, talvez eu consiga uma promoção pegando o “maníaco do centro”. Posso até chegar a delegado desvendando essa investigação. Este tipo de mídia ajuda na carreira de um policial.

O homem não respondeu e isso me irritou. Eu gritei. – Você não vai contar? Tudo bem, pare o carro. Eu te vejo na sala de interrogatório da DP.

Ele não parou o carro. Seguiu dirigindo por alguns segundo até dizer que queria cooperar. Contou-me friamente. – Matei uma, tá bom? Matei uma puta de rua lá do centro. Juro. Foi um acidente e eu nem me lembro onde joguei o corpo. Era só uma puta!

Sua frieza era espantosa. Para ele, a mulher assassinada não era nada. Eu retruquei. – Mentira, você continua mentindo para mim. Eu sei que você matou outras mulheres e escondeu o corpo. Me fala sobre as outras.

Pedro voltou a falar que só havia matado uma. A essa altura ele estava muito nervoso e parecia um animal acuado e sem escapatória. Estava ficando desesperado, sem saída, e isso era muito perigoso para mim. Pedro era um doente e eu sabia do que ele era capaz. O carro ficou mais rápido e ele não parecia mais comandá-lo. Coloquei minha mão direita próxima da arma. Quando a senti, voltei a perguntar. – Quero saber das outras. Me fala sobre a garota do prédio da rua General Jardim que você invadiu. Onde desovou o corpo da garota?

Ele não respondeu e acelerou, cada vez mais apreensivo. Eu estava cansando daquele jogo e de suas mentiras. Perguntei mais uma vez. - Eu quero saber onde você escondeu o corpo dela. Anda, me fala logo.

Pedro se virou para mim, com um olhar frio e sem emoção e me disse tudo que queria saber, só com essa expressão. Ele nem se lembrava, estava matando há tanto tempo que provavelmente nem se lembrava de Júlia. Apesar de todo o trabalho, ela foi só mais uma no caminho dele.

O homem vinha em alta velocidade, em uma rua calma da Vila Madalena. Um cachorro atravessou o caminho e ele tentou desviar, mas acabou subindo com o automóvel na calçada e dando de cara no muro. O movimento de parada bruta do carro me fez segurar o revólver com força e depois de alguns instantes eu já o tinha sacado, estimulado pela adrenalina. Mantive a mira baixa, apoiada na minha barriga. Eu olhei dentro de seus olhos e pensei em Júlia. Quais foram os terrores que ela passou com esse homem, e o que ele teria feito com seu corpo? Em meus ouvidos ela pedia vingança. Era ele o homem certo, seu assassino. Eu perguntei mais uma vez. – Onde está a garota da General Jardim?

Ele ficou calado, de certo estranhando a minha insistência em relação a sua vítima. Pedro jamais confessaria, iria mentir por toda a vida, sabendo que ninguém poderia provar sua culpa pelo assassinato. Eu coloquei a arma em sua cabeça e apertei o gatilho. Ele não reagiu e tombou para frente, ficando apoiado apenas pelo cinto de segurança.

A bagunça estava feita, mas eu não senti remorso. Sai do carro apressado tentando não mostrar meu rosto. A rua estava calma e ninguém me viu, mas sabia que não tinha muito tempo. Peguei um táxi na esquina e fui para o meu apartamento. Era só uma questão de tempo até a polícia vir atrás de mim. Eles vão seguir as pistas, conversar com as pessoas e descobrir toda a história. Pedro importava para a sociedade e por isso, investigariam sua morte. Eu teria que sumir para não acabar meus dias mofando em um presídio.

Cheguei a casa e fiz uma mala, só com as coisas mais importantes. Agora, escrevo no blog para finalizar a história e para as pessoas saberem o que realmente aconteceu. Eu vou sumir no mundo e mudar completamente, viver outra vida. E eles nunca me acharão.

terça-feira, 21 de abril de 2009

FICHA CORRIDA

Já comecei a trabalhar na identificação do suspeito, o homem de quem peguei a identidade na semana passada. Prometi ao delegado, que já tinha me dado pastas com arquivos dos crimes de Júlia e da outra mulher, que não o incomodaria mais. Porém, se eu estivesse certo o seqüestrador não seria réu primário, sua ficha já devia estar manchada com alguma agressão a mulheres. Liguei para o delegado e o intimidei sem nenhuma vergonha. Ele pediu 48 horas. Também comecei a mostrar a foto da identidade do homem para as garotas de Janice. Algumas o reconheceram e disserem que ele era o homem que as visitava de vez em quando.

Hoje, o delegado me mandou a ficha corrida do suspeito por um motoboy. Quando abri estava lá a mancha em seu passado, cometido na juventude, quando ainda não era um predador experiente. Era só um moleque e não foi condenado pelo espancamento de uma prostituta, junto com alguns amigos. Ele foi fichado e pela sua foto, segurando uma plaquinha com números, pude perceber melhor seus traços, mesmo que o retrato fosse antigo. Tinha traços comuns e nada em especifico nele chamava atenção. A única coisa que me impressionou foi sua frieza. Quando o intimidei, ele não se desesperou ou alterou a voz. Estava seguro de si e tranqüilo. Quando lhe perguntei sobre as prostitutas ele falou sem inibições. O homem gostava realmente daquilo. Era o suspeito perfeito e teria tempo, e dinheiro, para planejar um ataque a Júlia. Quem iria desconfiar dele?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

CAÇADOR DE MULHERES

Ontem tive certeza que vi o assassino. Eu estava conversando com três garotas que ficavam fazendo ponto próximas à Praça da Sé, em frente a pequena igreja de São Gonçalo. As mulheres ficavam mesmo na frente da construção sagrada vendendo seus corpos, a qualquer hora, de dia ou à noite. Eu estava lá, umas 22h, tentando conseguir informações com notas de R$ 20. Enquanto conversávamos uma das garotas olhou para trás de mim e viu um homem se aproximando. Ela fez uma cara de desgosto e avisou as outras garotas. Todas olharam e eu também me virei para encarar a figura. Era um homem moreno, meia idade e de estatura média. Eu segurei a garota que primeiro viu o homem e a puxei para o lado. As outras duas que ficaram paradas foram abordadas pelo homem. Eu perguntei por que a garota tinha ficado chateada com a chegada do indivíduo. Ela reclamou que ele já tinha sido “duro” com ela. Eu perguntei o que ele fez. A garota, de no máximo 20 anos e cabelos louros tingidos, me contou que ele tentou forçá-la a entrar no seu carro, ao invés de usar um hotel ao lado, como era costume. Ele havia ficado bravo e tinha a empurrado no chão.

Escutei a história da garota enquanto o homem ia para o hotel com uma das prostitutas. Eu resolvi ficar por perto e esperar ele terminar o programa. Procurei seu carro com a ajuda da prostituta. Era uma caminhonete preta, com aparência cara. Se não fosse roubada, o homem andava bem de vida. Fiquei escondido no quiosque de flores que fica ao lado da igreja, onde ele havia estacionado. Pensei no que eu ia fazer, mas sabia que não podia perder o homem que poderia ser assassino de Júlia. Resolvi interrogá-lo de uma maneira muito peculiar, que aprendi nos anos de serviço.

O homem demorou uns 20 minutos. Saiu andando devagar, cheio de alegria. Esperei ele passar por mim para poder segui-lo de perto. Ele andou alguns passos antes de sentir que eu estava andando sorrateiramente em suas costas. O homem acionou o alarme e apressou o passo rumo ao carro. Antes de ele colocar o pé na rua eu disse para ele, em tom firme. – Espere, senhor.

Ele se virou em minha direção, mas eu não o deixei ver meu rosto. Eu disse – Entra no carro. Rápido, que eu tenho uma arma.

A essa altura, apesar de nem ter percebido, eu já estava com o revólver apontando. Minha mão estava firme e meu dedo no gatilho, com uma segurança que nem sabia que tinha em mim. Agora éramos só nós dois, um contra o outro. Eu disse. – Vamos, senta no assento do motorista.

Ele seguiu as instruções. Eu o mandei não ligar o carro e sentei no banco atrás do seu. Também falei para ele virar o espelho central, para não poder me reconhecer. Ele obedeceu. Eu disse. - Me passa a sua carteira. Devagar.

Ele tirou a carteira do bolso e me entregou. Eu ordenei. - Ligue o carro. Pegue a esquerda e siga para o Anhangabaú.

O homem obedeceu e só quando ele virou a rua, e me certifiquei que ninguém tinha nos visto, pude olhar a sua carteira. Era fina e muito bem preparada. Tinha bastante notas trocadas, especialmente as de R$ 20, e não tinha nenhum documento nem cartões de banco. Eu perguntei. – Você é policial, não é?

Ele respondeu que não, secamente. Eu continuei. – Você é policial sim. Sua carteira não tem documento, o dinheiro foi preparado. Me dá a sua arma!

O homem ficou calado alguns instantes e depois disse, tentando explicar. – Eu não sou policial não, você está me confundindo. Eu só vim comer uma puta.

Eu o interrompi e disse. - Me dá a sua identidade. Onde está?

Ele a pegou no gabinete do carro e me entregou. Eu perguntei. – Se você não é policial porque esconde a identidade no carro?

Ele respondeu. – Para não perder ou ser roubado por uma puta. Só levo o necessário.
Eu o mandei mudar o destino e seguir rumo à praça da República. O ameacei de novo dizendo que se ele fizesse alguma coisa, iria morrer. Recomecei a conversa. – Só um policial, em missão, seria tão profissional para pegar uma prostituta. Você está me enganando. Acho que estava xeretando no comércio noturno da região.

Ele negou – Eu já disse que não sou policial. Só vim comer uma puta, entendeu?

Eu gracejei. – Então deve ser o maior e mais sábio comedor de puta da cidade. Um verdadeiro profissional.

Ele não respondeu então eu continuei. - Então, senhor comedor de putas, gostou da garota lá da Sé?

Ele respondeu, calmamente. – Era boa sim. Agüentava bem o tranco.

Eu lhe dei corda. – Então você conhece de putas, saí com muitas delas?

Sua voz mudou nesse instante e ele disse confiante. – Eu gosto bastante. Elas são uma solução barata e rápida para o problema masculino.

Eu perguntei. – E qual o problema dos homens?

Ele disse, com um risinho. - Precisamos satisfazer nossas necessidades, se não explodimos.

Eu dei uma risada simpática e continuei. – E é preciso muitas mulheres para satisfazer a sua necessidade?

Ele disse. – Quantas eu puder encontrar.

Com sua identidade e carteira na mão, pedi que ele encostasse o carro próximo da estação de metrô. Eu lhe disse. - Ainda não sei se você é policial ou não, mas não apareça mais nessa região. Se você voltar eu vou ter certeza de que você é um policial. Agora desligue o carro.

Eu o mandei ficar com a cabeça baixa, com as mãos no volante por alguns minutos. Abri a porta e sai me misturando com as outras pessoas na rua. Desviei do metrô e peguei o primeiro táxi que vi. Ele não daria queixa na polícia e agora tinha um suspeito e sua identidade.

terça-feira, 14 de abril de 2009

QUESTÕES

Ainda tenho tido dificuldades para dormir. Nessa última semana tenho tido muitos pesadelos. Na verdade é sempre o mesmo: a cidade está lá imóvel e dos bueiros surge uma sombra escura que começa a se espalhar dentro das casas, comércios e apartamentos. É tudo muito rápido e toma São Paulo em poucos instantes. Ela vem a minha porta e escorre pelas frestas até me dominar. Acordo assustado, no meio da noite, procurando pela minha arma, que está sempre no meu criado mudo. Desde que a retirei do armário, para ir conversar com a amiga de Júlia no supermercado não consigo me afastar dela. Mantenho-a carregada e limpa em casa e quando saio à rua, a coloco em um coldre preso ao meu cinto. É um revolver pequeno, fácil de esconder. A arma tem me feito companhia nos diversos lugares tenebrosos que tenho freqüentado para descobrir o assassino de Júlia. São ambientes horríveis e deprimentes, onde se vende carne como em um açougue. As ruas onde as garotas fazem ponto também são uma desgraça e nelas, as meninas estão sempre com medo. O centro era uma poça de degradação para todos, do prefeito ao menino de rua. Se o coração da cidade está neste estado de putrefação, como estaria o resto da cidade?

Já fui me encontrar com Suelen e Janice. Na parte da tarde estive no bar onde Janice controlava suas garotas. Ela me falou de um homem que aparecia de vez em quando e que sempre queria uma garota diferente, dificilmente repetindo uma. Era moreno e de estatura média e andava em uma caminhonete. Já tinha agredido uma garota, mas ainda assim tinha a cara de pau de continuar aparecendo. Ele se encaixava na história do assassino, a não ser pelo seu carro. Mas isso seria simples de contornar, ele poderia simplesmente ter alugado um veículo. Mais tarde me encontrei com Suelen e ela me falou de um homem moreno que gostava de freqüentar o ponto de sua falecida amiga. As garotas do lugar diziam que ele estava meio sumido, mas que tinha voltado a aparecer. A mesma história que a de Janice, até com algumas garotas agredidas, mas só que com nomes diferentes. Ele devia dar um nome distinto em cada lugar. Pedi a cafetina e ao travesti para me avisar se ele aparecesse.

Procurei mais um pouco pela região até chegar a um leão de chácara de uma boate do centro. Por R$ 20 ele me contou a história de um freqüentador expulso há alguns meses. Esse homem tinha tentado levar uma garota para seu carro à força antes que os seguranças o jogassem na rua. A descrição que o segurança me deu foi igual ao do homem que agredia mulheres, dada por Janice e Suelen.

Acho que estava na pista certa, só precisava de uma identificação positiva. Continuei freqüentando os inferninhos e pontos de rua. Às vezes avistava um suspeito, mas como ter certeza de que era mesmo o homem que procurava? Sabia que ele estava procurando a próxima vítima, mas precisava ter certeza.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

AS FACES DA HISTÓRIA

Júlia não contou nem para a melhor amiga seu segredo, mas confidenciou ao homem que amava. Deu errado. Pobre garota miserável, não conseguiu encontrar a felicidade. Devia ter ficado calada e mentido como todo mundo, mas resolveu ser honesta e se abrir. Deu no que deu. Hoje um mecânico da oficina de Renato ligou e disse que o carro estava bom. Eu fui à oficina, mas não consegui encontrar Renato. O mecânico me explicou o estado do carro e disse que eu podia levá-lo. Eu perguntei sobre o paradeiro de Renato e o mecânico falou algo sobre doença. Ele não queria me ver. Entendi a deixa e avisei que alguém viria pegar o carro. Fui para casa e liguei para o Valdir dar um jeito na situação.

Após fazer a ligação fiquei sentado no sofá, pensando na história toda. Eu não acho que Renato é culpado e agora voltei à estaca zero. Ele era só um rapaz de família, que não conseguia conviver com certas coisas que não entendia. Quem poderia culpá-lo por não aceitar? Era um rapaz honesto, trabalhador. Não faria uma coisa dessas, não alguém que freqüentava a igreja e que era tão correto. Para seqüestrar Júlia ele precisaria ter algo sombrio escondido em seu coração por muito tempo, disfarçado, até alguma coisa despertar o monstro frio e calculista que se apoderaria dele. Como ele poderia voltar a ser o mesmo depois?

Agora sei que não foi ninguém próximo a ela que a matou. Existe realmente um assassino perigoso rondando por aí e alguém tem que pará-lo. Me voltei a internet de novo, procurando entender a cabeça do tipo de homem que teria seqüestrado Júlia. Deve ser um assassino sem consciência, um fruto da loucura dos novos tempos, que torna o chamado assassino serial em estrela pelos seus crimes. Quanto mais brutal, mais famoso. Mas é só ler um pouco sobre o assunto para entender que não há nada de especial em um homem que não sente nada e que cura seu tédio brutalizando seres humanos. Ele sente prazer em destruir e causar dor à outra pessoa.

Existem diversos tipos desses monstros doentes, cada um com sua especificidade. Alguns são inteligentes e organizados, outros são carniceiros. No meu caso devia começar a procurar um homem organizado o suficiente para armar um seqüestro e desaparecer com um corpo. Li muito sobre o assunto até que achei um caso parecido. Seu nome era Gary Ridgway, um norte-americano que ficou conhecido como o assassino de Green River. Ele matou quase 50 mulheres antes de ser pego. Eram quase todas prostitutas e depois ele admitiu que as matava porque sabia que "poucas delas seriam dadas como desaparecidas". E ele ainda disse: "Escolhi as prostitutas porque acreditava que poderia matar quantas quisesse sem ser pego".

Ele era organizado e enganou a polícia por anos, chegando a colocar pistas falsas nas cenas dos crimes. Esse era o tipo de homem que procurava, mas por que Júlia teria sido pega por ele? Será que ele já havia a marcado há muitos anos atrás ou só deu de cara com ela na República? De qualquer jeito é melhor falar com Suelen e Janice e esperar por uma pista mais sólida.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

HOMEM PERDIDO

Marquei de pegar o carro com Renato na quinta-feira, véspera de feriado, logo ao entardecer. Combinei de encontrá-lo com o táxi na frente de sua oficina às 16h30. No horário marcado ele já estava pronto, já sem uniforme e de banho tomado. Entramos no carro de Valdir e fomos rumo a um bairro no extremo da Zona Norte de São Paulo. Quando chegamos ao local, comentei no táxi. - Já pegamos esse trânsito para ir, imagina o da volta.

Estávamos na casa do meu amigo as 17h30. Havia ligada para ele combinando os detalhes sobre o carro e o que deveria dizer, apesar de achar que Renato não se importaria com a história contada. Tocamos a campainha e logo meu antigo associado veio abrir o portão, com um sorriso no rosto. Fazia algum tempo que não encontrava João. Trabalhamos uns bons anos juntos. Ele era um sujeito muito competente no que fazia, trabalhando infiltrado. Se passar por dono de um carro à venda não seria difícil para ele. Logo foi mostrando o carro e dando as chaves para o mecânico. Puxou-me pelo braço e veio me perguntar o porquê da história toda. – O que você está aprontado, Vargas? Você vem aqui e pede para emprestar o carro, mas quer que eu finja que estou vendendo. O que esse mecânico fez?

Respondi calmamente. – Ainda não sei, mas espero que nada. Ele está me ajudando a confirmar uma coisa.

Abrimos o portão e Renato estacionou o carro na frente da garagem, ainda com o motor ligado. Cumprimentei João. Ele disse. – Boa Sorte.

Entrei no carro e Renato arrancou. Tinha conseguido enrolar um pouco e saímos no horário previsto, na pior hora do trânsito. Antes de chegar à esquina perguntei. – Você quer parar em algum lugar para comer? O trânsito deve estar um inferno.

Ele acenou que não. – Comi um salgadinho antes de vir, obrigado.

Eu disse. – Tudo bem. Então vamos encarar o monstro.

A marginal Tiete estava engarrafada. Renato parecia reflexivo e resolvi arriscar e tomar um gole do uísque que trazia em meu paletó. Dei um gole, mas fingindo que bebia. Limpei a boca com a manga do paletó. Dei uma limpada na garganta, simulando prazer, mas não ofereci a Renato. Já fui guardando o uísque enquanto ele me olhava surpreendido, mas não pediu um gole. Resolvi oferecer. – Desculpa, Renato. Tomei um gole aqui da minha bebidinha e nem te ofereci. Quer um pouco?

Renato parecia tentado. Resolvi apressar as coisas e tirei a bebida do paletó e a coloquei em sua mão. Comentei. – Toma um golinho, meu amigo. Porque vamos ficar parado aqui um bom tempo. Na verdade, toma um golão!

Eu ri da minha piada e ele pareceu amolecer. Deu um grande gole na mistura que havia preparado em casa. Não tinha enchido totalmente o recipiente da bebida para dar a impressão que tinha dado um gole grande do uísque. Também misturei com alguns remédios de venda controlada, que combinados deixavam a pessoa mais relaxada. Ele devolveu a bebida e quinze minutos depois, após termos andado poucos metros com o carro, ofereci outro gole. Novamente ele aceitou.

Depois do segundo gole ele começou a ficar mais solto. Seus ombros ficaram menos rijos e sua coluna começou a entortar. Seus braços se apoiaram no volante. Ele parecia meio confuso com o efeito, mas logo interferi em seus pensamentos. – Essa bebidinha bate forte, não é? Essa é danada!

Ele me olhou, processou a informação e a aceitou como verdadeira. Comecei a papear. Falei do tempo, do trânsito, da maldita cidade. Não só ele concordava com a cabeça, como até fazia suas próprias críticas. Estava ouvindo pela primeira vez sua voz e ela ficava cada vez mais confiante. E mais irada também. Critiquei o asfalto das ruas e ele usou um palavrão para ofender a mãe do prefeito, por fazer um serviço tão mal-feito. Ele ia se deixando invadir pela raiva e ia relaxando cada vez mais.
Falei mal da polícia e da podridão que era a República. Ele concordou e soltou mais palavrões. Eu comecei a contar uma história. – Sabe, a nossa polícia é uma porcaria mesmo. Você acredita que seqüestraram uma garota no prédio que eu moro. Era minha vizinha, lá na General Jardim. Os policias não fizeram nada! Nem investigaram.

Ele demorou um pouco a entender o assunto da conversa por causa da bebida batizada, mas quando ouviu as palavras certas, ficou imóvel. Ele permaneceu quieto e eu dei um pouco tempo para ele organizar suas idéias. Continuei. – O cara que fez isso saiu impune, acredita? Como é que pode? Esse mundo está perdido mesmo, não meu tempo não era assim.

Renato ficou perturbado com a conversa. Perguntou. – Que história é essa que o senhor tá contando? Como era o nome da garota?

Eu fingi ter dificuldade em lembrar, mas acabei dizendo o nome de Júlia. Disse que não a conhecia direito, mas que fiquei sabendo tudo pela síndica do prédio. Ele ficou perplexo. Eu lhe perguntei se estava bem e ele não conseguiu disfarçar a emoção. Eu lhe perguntei de novo e ele acabou cedendo. – Eu a conhecia, ela já foi minha namorada...ela...

Ele se calou e temi que não revelasse mais nada. Continuei. – Poxa, me desculpa tocar no assunto...eu não sabia. A síndica disse que vocês iam se casar.
Ele me interrompeu. – Nós não íamos nos casar nada. Ela que andou espalhando isso, mas eu tinha terminado com ela. Ela que continuava falando para os outros dessa história.

Renato parecia bravo e suas lágrimas pareciam se tornar de ódio. Eu precisa continuar pressionando. – Calma, amigo. Eu sei que você devia amar muito a sua noiva, aqui toma mais um golinho.

Ofereci a bebida, mas ele não aceitou. – Aquela perdida não era minha noiva! Eu já disse, eu terminei com ela. Ela não queira aceitar, mas eu acabei com tudo.
Eu falei, fingindo complacência – Desculpa. Eu também nunca te vi por lá, vocês não deviam ser muito próximos mesmo, não é?

Esbravejou. – Ela nunca me deixou subir, dizia que não era direito. Se fantasiava de honesta, ia à igreja e tudo. E pensar que eu apresentei ela para os meus pais.
Eu o confortei. – É, mulher só dá dor de cabeça mesmo. São todas iguais.

Ele retrucou. – Não são todas iguais não, algumas são piores. Te iludem, depois que você fica sabendo a verdade e percebe que é tudo é mentira. São fingidas. E ainda grudam, como se eu você tivesse alguma obrigação com elas. Como se eu devesse algo a ela.

Concordei. – Esse tipo de mulher eu conheço, são de matar.

Ele continuou. - São mesmo, não entendem quando se diz não. Elas querem continuar a incomodar. Ai se fazer o que, né?

Eu dei corda para seus delírios. – É. Mas como se livrar delas?
Renato ficou pensando e minha pergunta, em estado de transe. Ele limpou o nariz e ficou balançando a cabeça, em sinal negativo. – A gente espera um milagre. Acontece alguma coisa e elas somem. Deus sabe o que faz.

Tentei uma última cartada para descobrir o que Júlia havia feito de tão grave. – É, ele sempre sabe. Mas não devemos mais nos preocupar com essas coisas, elas saram. Mas, se você não se incomoda de eu perguntar, por que vocês terminaram? Ela parecia uma boa garota, não fazia festa, não levava gente no apartamento. Ela nem fazia barulho.

Renato falou rápido, querendo mudar de assunto. – Ela tinha feito uns negócios, no passado, algo que nenhum homem pode perdoar. Coisas que ninguém pode passar por cima.

Eu decidi oferecer de novo o uísque e ele aceitou. Deu um gole e continuou. – Disse que foi para sobreviver e que fez por pouco tempo, quando saiu da casa dos pais. Mas que diferença faz, se é pouco, muito? Imagina que ela tentou argumentar. Depois pediu para eu a perdoar e disse que me amava. Imagina que eu podia amar ela depois disso? Eu só queria que ela me deixasse em paz.

Ele deu mais um gole na bebida e a devolveu. Depois disso eu não precisava saber de mais nada, já tinha uma idéia do que tinha acontecido.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

OBSERVE E VERÁ

Voltei à oficina hoje, na parte da manhã. Renato estava no canto arrumando as ferramentas calmamente. Eu entrei no estabelecimento e fui em sua direção. Ele me viu chegando e me cumprimentou ainda lembrando-se do meu nome. Desta vez eu não usava nome nem identidade falsa. Fui como eu mesmo, com a desculpa de queria comprar um carro. Achei que seria a melhor forma.

Apertei sua mão e ele me convidou para conversar em um bar ao lado da oficina. Pedi um café com leite e ele também. Comentei sobre o carro que queria comprar. Disse que era de um velho amigo, que morava na zona norte, e gostaria de saber qual era a situação do veículo. Ele falava pouco e concordava com a cabeça. Não estabeleci uma data certa para a vistoria, mas expliquei a Renato que ele precisaria pegar o carro comigo para trazer à oficina. Perguntei quanto ele cobraria pelo trabalho. Ele pensou um tempo e me cobrou um pouco mais do que seria justo. Pensei em pechinchar, mas resolvi deixar o peixe na rede.

Falei que queria ir de táxi e que poderíamos ir juntos. Eu comentei. – Eu moro aqui perto, na rua General Jardim, posso marcar para o táxi vir nos encontrar aqui na oficina.

Ele não esboçou nenhuma reação ao nome da rua da ex-namorada, só concordou com a cabeça. Eu disse que ligaria para ele. Depois disso, eu desci a rua rumo a minha casa. Durante toda a conversa ele estava aéreo e não parecia ligar muito para o trabalho. O que será que aflige Renato? Vou ligar para ele nos próximos dias e marcar uma data para nosso encontro.

sábado, 4 de abril de 2009

ARMANDO UMA ARMADILHA

O nome do ex-namorado de Júlia é Renato. Ele trabalha em uma oficina mecânica aqui no centro e eu fui procurá-lo no final da tarde de ontem. O peguei indo embora, rumo ao metrô. Os funcionários da oficina fechavam o estabelecimento e perguntei por Renato a um mulato. Ele apontou para o ex-namorado de Júlia. Eu fui até ele e me identifiquei dizendo que um amigo havia recomendado a oficina, e que havia mencionado seu nome. Comentei que queria comprar um carro, mas precisava de alguém de confiança para avaliar o estado do veículo. Ele coçou a cabeça, tentando se livrar de mim. – Agora tá tarde por que você não volta na segunda, na parte da manhã?

A conversa pareceu promissora, mas antes desse primeiro contato com Renato, eu já tinha pedido a Valdir que fizesse uma consulta entre os taxistas, para saber o que se dizia dele. Descobri que todos os que o conheciam falavam de seu jeito quieto. Consideravam-no um sujeito honesto e um mecânico habilidoso. Um homem muito organizado com suas ferramentas me disse Valdir, citando outros colegas. Pelo arquivo do caso de seqüestro de Júlia, feito pela polícia, ele não tinha antecedentes e tinha um bom álibi. Renato disse aos investigadores que estava em casa no dia do crime e seus pais confirmaram a história. Parecia tudo em seu lugar, mas que pai não mentiria por seu filho, se ele pedisse?

Também tinha ido a sua residência. Observei por um tempo a casa assobradada onde mora, junto com o pai e mãe, na região de Santa Cecília. Era uma casa simples. Eu até consegui ver sua mãe, uma senhora pequena e magrinha, que devia ter uns 70 anos. Esperei anoitecer para ver Renato entrar na casa.

Na noite seguinte, ainda na fase observatório, voltei para frente da casa de Renato. Não esperava conseguir nenhuma informação, pois o máximo que ia ver era ele entrando em casa. Mesmo assim fiquei esperando o rapaz chegar. Quando apareceu, ele não foi para casa, mas para um bar que ficava ao lado. Fiquei do outro da rua, observando-o de uma pizzaria que tinha dois andares. Fiquei enrolando, porém uma hora tive que sair, e ele ainda continuava enfurnado no bar. Depois de três horas ele saiu, se apoiando nas paredes de tão bêbado, tentando chegar em casa. Eu me apressei para entrar no bar. Cumprimentei o balconista, pedi uma cerveja e fui logo reclamando do bêbado que saiu. O atendente também aproveitou para criticar o homem. Perguntei se conhecia o bebum e ele comentou que fazia pouco tempo que o ex-namorado de Júlia aparecia para encher a cara. Disse que não falava nada, só ficava bebendo no seu canto quieto. Eu comentei. -Deve ser dor de corno.

O balconista riu, mas disse que Renato nunca havia comentado nada. Ele só ficava ali se embebedando. Aquele comportamento não estava adequado com o de um evangélico. Talvez Renato estivesse com a consciência pesada.

Com tudo isso em mente, passei incontáveis horas procurando uma solução para o problema de como conquistar Renato, porque era o único jeito dele me contar coisas íntimas, que não contaria a mais ninguém. Tenho um plano, mas uma coisa dessas é difícil de realizar e vai tomar algum tempo. Quando se planta um espião, ou uma “topeira” como dizem os americanos, é preciso lhe dar tempo para se aproximar e ver onde estão as rachaduras, as arestas onde trabalhar.

Eu sabia que tirar alguma informação de Renato seria difícil. Ele é do tipo fechado, mas eu preciso fazer ele confessar.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O DESTINO

Acho que Júlia nunca conseguiu escapar de homens cruéis e doentes. Na segunda-feira visitei a casa dos pais dela e pelo pouco que presenciei já entendi porque a garota havia fugido de casa. Não é preciso ser gênio para saber que ela devia viver em constante medo. Sua mãe não a protegeria, tinha mais pavor ainda do marido. Quem sabe os abusos que ela sofreu naquele lugar horroroso, caindo aos pedaços, com aquele animal. A sina de Júlia era sofrer, agora tenho certeza. Teve sua existência permeada pelos desejos de controle dos homens. Sua vida foi deles.

Infelizmente, a visita não me ajudou em nada na investigação. Não consegui tirar nada dos pais de Júlia, mas entendi um pouco mais de sua triste história. Minha pista mais sólida continuava sendo o ex-namorado de Júlia. Sei seu nome e o endereço de onde trabalha. Vou revirar sua vida e descobrir o que aconteceu com Júlia.

segunda-feira, 30 de março de 2009

UM LUGAR ESCURO E TRISTE

Vesti uma roupa simples e fui ao encontro dos pais de Júlia. Peguei a caixa que tinha preparado, chamei Valdir e parti para a Aclimação. Cheguei lá umas sete horas da noite e a rua ainda fervilhava de carros. Vi o cortiço todo aceso ainda na esquina quando desci do táxi. Andei até a porta do lugar, que estava aberta, mas havia três moradores em volta dela. Passei pelos homens mal-encarados e fiquei satisfeito com meus instintos que me disseram para trazer a arma. Entrei e logo ouvi a barulheira do lugar, os rádios ligados, a gritaria, os risos. A tinta descascada das paredes dava um aspecto decrépito ao cortiço, que parecia podre por dentro. Havia um corredor enorme que, no final, dava para uma escada. De uma das portas, todas identificadas com pequenos números desenhados na porta, saiu uma mulher idosa. Ela me olhou surpresa e veio na minha direção. Eu perguntei a ela. – Por favor, onde posso encontrar o seu Inair e a dona Creusa?

Ela me encarou e explicou. – Eles moram no andar de cima, no 15. È só subir as escadas.

Eu agradeci à mulher e subi as escadas escuras. O andar de cima era igual ao de baixo, sujo e feio. Procurei a porta dos pais de Júlia, que acabou sendo a primeira do andar. Bati na porta e uma mulher atendeu. Era baixa e barriguda. Usava uma bermuda e camiseta regata, com um par de chinelos de dedo. Me dirigi a ela. – Por favor, você é a dona Creusa?

Ela acenou que sim com a cabeça e ficou esperando que eu falasse. Eu continuei. – Desculpa incomodar a senhora, mas vim trazer algo, algo de sua filha Júlia.

A mulher ficou imóvel por alguns instantes, me encarando como se eu fosse um alienígena. Eu comecei de novo. – Eu trouxe algumas coisas que não jogaram no lixo, eu achei que a senhora poderia querer.

Creusa disse, com medo. – Moço, pelo amor de deus, nem fala esse nome aqui. Se meu marido souber que você está aqui, ele vai ficar louco. Leva essas coisas embora.

Ela colocou as mãos na porta. Eu disse, antes que fechasse. – Mas são as coisas de sua filha. Ela me pediu para vir aqui entregar.

A mulher parou. Seus olhos tentavam disfarçar a emoção, mas ela estava perturbada. Segurou a porta com mais força e disse. – Agora eu não preciso mais disso, moço. Joga fora, que eu já perdi minha filha faz tempo.

Eu a impedi de fechar a porta de novo, falando. – Foi seu último desejo. Eu sou síndico do prédio onde ela morava e fui encarregado de fazer esse favor, por Júlia mesmo.

A mãe de Júlia parou para ouvir o que eu tinha a dizer. De dentro do apartamento vinham gritos masculinos, e eles se aproximavam. Um homem de bigode, baixo e de meia idade apareceu e empurrou a mulher. Foi logo falando alto. – Quem é o senhor e o que você quer aqui a essa hora?

Ele se virou para a mulher e perguntou. – E você, o que estava falando com ele?

Era o pai de Júlia, com certeza. Só de ver o medo da mãe e o jeito que ele trata as pessoas, pude perceber porque a garota não queria ficar aqui perto dele. Falei. – Seu Inair, eu sou síndico do prédio onde sua filha Júlia morava, vim trazer as coisas dela para vocês.

Os olhos do homem pareciam saltar de tanto ódio logo que ouviu o nome da filha. Ele respondeu, irado. – Olha aqui moço, vai embora e leva essas coisas com você. Daquela safada eu não quero nada.

Eu disse. – Por favor, seu Inair, foi o último desejo dela. Pouco antes de desaparecer ela me pediu para fazer esse favor.

Ele se irritou. – Tira essas porcarias daqui agora. Tá fazendo o favor por quê? Era amante dela?

Não retruquei. – Olha, seu Inair, eu vou deixar isso aqui na porta e depois vocês vêem o que querem fazer. Eu vim aqui fazer um favor à sua falecida filha.

Abaixei-me e deixei a caixa. Levantei devagar e ele continuava parado, olhando. A mãe de Júlia estava colada na parede, com olhos assustados. Ela ficava parada, se retorcendo a cada grito do marido, apavorada. Eu fui saindo e disse. – Desculpa incomodar.

Eu desci as escadas e ele bateu a porta. Os gritos continuaram, só que agora abafados. Ainda eram altos e quem iria pagar a conta da irritação do pai de Júlia era sua esposa. Pobre mulher.

domingo, 29 de março de 2009

CASARÃO MAL-ASSOMBRADO

Antes de ir conversar com o namorado de Júlia resolvi visitar os seus pais. Alguma coisa em seu passado havia perturbado o presente. Na verdade, tinha o destruído. Peguei o endereço no prontuário e fui dar uma primeira olhada. Os pais moram em um cortiço, perto do hospital Beneficência Portuguesa. É um casarão amarelo grande, feio e deprimente, que dá as costas para a Avenida 23 de maio. Confirmei o endereço e entrei em um bar ao lado até decidir o que fazer. Na verdade, esperava ver as feições de Júlia neles. Mas é claro que isso não aconteceu. Fiquei ali no bar esperando por uma idéia, um jeito de me aproximar. Pedi um uísque e depois outro. No terceiro, vislumbrei algo.

Precisava reconciliar a família de Júlia. Parti rumo ao centro e comprei umas roupas, jóias baratas e coisas de mulher. Também comprei uma caixa bonita e coloquei tudo dentro. Amanhã vou visitar os pais de Júlia.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A ARTE DE FINGIR

Precisei de dois dias para me preparar para a conversa com a amiga de Júlia. Fiquei pensando em como me aproximar, mas nada parecia plausível. Decidi ir como policial, inventar uma história, um nome, tudo para fazê-la falar. Preparei uma carteira policial falsa e vesti um terno. Levei a arma e coloquei na cintura, para tornar a farsa mais real para Maria, a colega de Júlia no supermercado. Com tudo pronto, resolvi ir ao lugar já à noite, para ter mais tempo com ela. Esperava encontrá-la de saída do turno.

O mercado era grande e estava cheio de gente comprando. Falei com um atendente e perguntei por Maria. Ele disse que ela deveria estar se trocando. Pedi para chamá-la. Após alguns minutos ela apareceu, pronta para ir embora. Confirmei seu nome e me identifiquei como policial. Expliquei que estava ali para saber do caso de Júlia. Maria concordou em conversar, mas não no supermercado. Fomos até um bar na esquina e nos sentamos. Citei os nomes dos investigadores do caso de Júlia para ela ficar mais confiante em minha história. Maria começou a falar devagar. Contou-me que Júlia havia conseguido o emprego há cerca de um ano e as duas logo ficaram amigas. A garota era do tipo fechada e algumas coisas ela não comentava nem com Maria. Eu perguntei sobre a família de Júlia e ela disse que não sabia muito, mas que a garota não queria nem saber deles. Ela tinha quase certeza que eles não tinham nenhum contato.

Mencionei o namorado. Maria disse que já tinha visto ele algumas vezes, quando ele vinha ver Júlia no supermercado. Ela comentou. – Acho que ela estava feliz. Conheceu ele em um culto da igreja evangélica. Os dois estavam namorando há um tempo, acho que começaram a sair na mesma época que ela mudou para cá. Não falava muito dele, mas sei que eles tinham um relacionamento muito respeitoso, até por causa da vida na igreja.

Eu a interrompi. – Mas eles brigaram, não é?

Ela afirmou sim com a cabeça e disse. – Eu não sei o que aconteceu. Eles estavam bem em um dia e no outro, sei lá. Depois disso, ela ficou triste e deprimida. Eu tentei saber o que tinha acontecido, mas ela não contava. Um dia a peguei chorando no estoque. Ela estava debruçada em cima dos sacos de feijão, tentando limpar as lágrimas. Eu fui lá e perguntei bem séria o que tinha acontecido. Ela começou a chorar e disse que ele tinha terminado com ela, por um motivo que não deveria importar mais. Ela tentou falar com ele algumas vezes, tentando uma reconciliação, mas não teve jeito. Eu dei a maior força para ela, disse que ela deveria lutar pelo amor. Ela se animou e depois disso começou a correr atrás dele sempre. Nem parecia a Júlia que era toda tímida. Começou a dizer que ninguém iria tirar a felicidade dela, agora que tinha achado. Mas aí ela sumiu e ninguém sabe o que aconteceu. A polícia até agora não a achou.

Eu abaixei a cabeça e fingi não escutar a alfinetada, como um policial de verdade faria. Perguntei se fora o namoro, havia alguém atrás dela, um pretendente não correspondido. Ela afirmou que não. Perguntei o motivo da separação dos namorados. – Olha, não sei. Ela saía pela tangente toda vez que eu perguntava. Dizia que era uma bobeira e nunca falava o quê.

Fiquei calado por alguns instantes. Ela disse que tinha que ir embora e eu a deixei ir. Antes de me deixar ela perguntou. – Por que você veio aqui me perguntar isso tudo de novo? Tudo que eu falei já tinha dito para os outros policiais.

Eu respondi. – Eu estou revendo o passado, tentando preencher algumas lacunas deixadas pelos meus colegas. Às vezes, só é preciso distanciamento e tempo para ver as coisas como realmente são.

quarta-feira, 25 de março de 2009

OS ARQUIVOS DO SUBMUNDO

O delegado me ligou hoje e disse que havia juntado as informações. Ele as mandou para minha casa, por meio de um motoboy. As pastas sobre os casos eram finas, mas não fiquei nada surpreso com isso. Não esperava um grande trabalho de investigação sobre a vida de duas mulheres pobres. Almocei, fiz uma grande jarra de café e me sentei para analisar os documentos na mesa da sala.

Decidi começar pelo caso de Júlia. Abri a pasta e me veio o passado. Tenho muita experiência em analisar informações, passei toda minha vida profissional fazendo isso. Sempre fui bom em juntar pedaços de relatórios e montar um cenário para meus superiores. Quando fui subindo de graduação tive que observar, além dos relatórios, as pessoas. Ouvia tudo,não revelava nada.


Quando me concentrei na pasta, mergulhei no universo particular de Júlia. Foi como olhar sua vida em um microscópio, fria e duramente. Ela tinha 23 anos. A garota não era do nordeste e tinha nascido em São Paulo, em um bairro da região norte. Tinha os pais vivos e eles moravam na Aclimação. Os policiais os procuraram, mas eles não sabiam dela fazia uns dois anos, segundo o relatório dos investigadores. Ela havia saído de casa e nunca mais deu notícias. Os policiais foram falar com uma colega de trabalho dela, no supermercado. A amiga declarou que Júlia tinha um namorado e que eles haviam brigado pouco antes de ela sumir. Os policiais o entrevistaram, um mecânico que trabalha em uma oficina aqui do centro. Ele apresentou um álibi convincente para os policiais e não foi mais incomodado. Desde então o caso está aberto, mas vai prescrever antes que alguém na polícia faça algo mais para investigar, principalmente sem ninguém reclamar.

Fechei a pasta de Julia e me levantei. De repente ela era uma garota diferente. Mais nova do que eu imaginava e com história mais perturbada. Fui até a janela e observei um desses mendigos que dormem na rua, protegido pela marquise. Onde ele havia errado e acabado na rua? Ou será que não era sua culpa?

Fumei um cigarro e fui olhar o outro caso, o da mulher morta em 2007. O assassinato aconteceu em julho, de certo um dia frio. A mulher tinha 34 anos e era prostituta perto da Praça de Sé. Ela morava em um cortiço nas redondezas até que um homem entrou no prédio e a seqüestrou. Os vizinhos ouviram a gritaria, mas não se meteram. O homem, descrito como de estatura média e moreno, a colocou dentro de um carro e os dois desapareceram na noite. Ela ficou sumida por quase um mês até que uma forte chuva revelou seu corpo, que estava enterrado no extremo da zona leste de São Paulo. O corpo foi identificado, mas o assassino não.

A história das duas era parecida, mas Julia não era prostituta. A mulher morta, segundo a ficha, era viciada em drogas e pode ter sido morta por vários motivos. Mas talvez tenha sido o mesmo homem, treinando e adquirindo experiência. Talvez caçando fora de padrão, procurando algo novo, mais sórdido. No caso de Júlia, o assassino poderia estar rondando a região e simplesmente se deparado com ela. Com alguns dias de vigilância ele podia realizar o seqüestro. O rapto foi bem organizado, por isso ele deve ter entrado e conhecido o prédio antes. De certo, algum vizinho descuidado o deixou entrar. Mas o mais difícil não é imaginar o como, mas o porquê. O que ele teria visto na garota?

Essa pergunta fica para depois. Primeiro tenho que ter certeza que o namorado não a matou. Não posso descartar essa possibilidade, pois a maioria dos assassinatos é pessoal. Se Júlia e o namorado tivessem brigado, havia um motivo para o crime. Decidi recomeçar as investigações pela colega de Júlia no supermercado.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O PASSADO VOLTA

Procurei a delegacia da Polícia Civil da região, onde a síndica havia feito a queixa do desaparecimento de Julia, para saber quem eu conhecia dos velhos tempos, da época em que a policia colaborava com o serviço. Descobri que o delegado titular era um velho conhecido meu, alguém com muita história nas costas, para a minha sorte. O delegado tinha um codinome nos anos de chumbo: mãos de fada. Era um apelido engraçado que frisava as suas atividades naquela época, a tortura. Diziam que ele era bom, que podia fazer qualquer um falar. O delegado tinha uma técnica e carinho especial com os testículos dos homens. Dava choque, espremia, batia. Acho que ele gostava muito da atividade, mas quando o regime começou a ruir, a agência o ajudou a esconder seu passado, como fez com muitos torturadores e colaboradores. Pelo jeito, tinham feito o trabalho direitinho porque ele conseguiu chegar ao atual cargo e ninguém o incomodou.

Pedi para falar com ele. Dei meu nome ao atendente, esperando que ele se lembrasse dos velhos tempos. Sabia que ele não ficaria feliz em me ver, mas esperava que o medo o fizesse me receber. O atendente voltou e me disse que o delegado estava ocupado e que eu marcasse uma hora. Resolvi esperar em um bar da esquina até que ele fosse almoçar. Era uma aposta. Fiquei esperando umas duas horas, mas ele acabou saindo da delegacia, acompanhado de outro policial. Tinha envelhecido é claro, perdido cabelos e ficado mais gordo como todo mundo, mas ainda tinha os mesmos gestos e jeito de andar. Atravessei a rua e o abordei. – Olá, delegado. Quer dizer que você não tem mais tempo para os velhos amigos?

Ele empalideceu. Ficou sem ação por alguns segundos, como se tivesse visto um fantasma. O policial que o acompanhava o cutucou e ele acordou do transe. O delegado deu um jeito de dispensá-lo e me chamou para tomar um café, amigavelmente mentindo. Nos afastamos da delegacia e ele começou a falar. – Vargas, há quanto tempo. Todos esses anos e nunca mais tive notícias suas...como tem passado?

Eu respondi. – Bem. Estou aposentado e aproveitando a vida.

Ele sorriu sem graça e perguntou. – Então, o que te traz aqui? Se meteu em alguma encrenca?

Eu soltei uma pequena risada e respondi. – Não, longe disso. Escuta, estou precisando de um favor seu. Aconteceu um desaparecimento no meu prédio. Uma garota foi raptada e nada foi feito para descobrir seu paradeiro. O caso está aqui no seu DP. Eu gostaria de ver os arquivos do caso.

O delegado estranhou o pedido, mas respondeu rápido. – Vargas, você sabe que eu não posso fazer isso. Imagina que eu vou te apresentar a investigação sigilosa assim, só porque te deu na telha de ser detetive. O que está acontecendo?

Expliquei a história toda enquanto andávamos. Fui o mais rápido possível porque ele estava louco para se livrar de mim. Ele falou. – Esquece essa história, Vargas. Isso deve ser uma bobeira de mulher e você não tem nada com isso. E além do mais, se o corpo dela não aparecer, não tem jogo. Agora deixa eu ir que estou morrendo de fome.

Ele me deu a mão para se despedir, mas eu não estendi a minha. Falei. – Mãos de fada, que é isso? Não acredito que vai recusar um pequeno pedido de um amigo de tantos anos. E, além disso, ninguém vai se importar se você me deixar dar uma olhadinha nos arquivos. Era só uma mulher boba, como você disse.

Ele esfregou a cabeça e entendeu que o ameaçava. Eu continuei. – Não faça drama, não é como se você fosse fazer algo de sério. Não como nos velhos tempos.

Sentindo que ele estava acuado, pus meu braço em seu ombro e falei. – Vamos lá, procure o arquivo e você nunca mais vai ouvir falar de mim. E antes que eu me esqueça, preciso que você me deixe ver outro caso de outra mulher boba morta em 2007. Ela foi a única morta aqui na região no ano.

Ele estava perplexo e perguntou. – Por que tudo isso? O que está procurando?

Eu respondi. – Nada, só satisfaça aos caprichos de um velho amigo.

Dei meu telefone e pedi que me ligasse quando tivesse tudo em suas mãos. Cumprimentei-o e fui embora. Espero que não tenha que voltar a pressioná-lo, não suporto o porco. Defensor de “revolução” com os bagos dos outros.