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segunda-feira, 13 de julho de 2009

FINAL

San Bernardino amanheceu com uma pequena coluna de fumaça, que levava ao céu os restos da casa de Ana. Logo que desci para o café da manhã notei a comoção dos funcionários e quando sai às ruas vi, por mim mesmo, a fumaça cinza e fúnebre. Corri para a casa de Ana já esperando encontrar o pior.

Na entrada da casa, vizinhos e policiais se aglomeravam. Perguntei à vizinha, a que tinha uma venda perto da casa, o que havia acontecido. Ela viu o fogo tomando toda casa rapidamente, por causa da madeira. Ninguém sabia de Ana, nem mesmo os policiais. Eles achavam que seu corpo carbonizado estava entre os escombros, esperando para ser descoberto. “O que causou o fogo?”, indaguei a um policial. O homem respondeu desgostoso, que ainda não sabiam.

De qualquer jeito, não adiantaria saber como ela se queimou. A culpa a consumiu e fez Ana se matar desse jeito horrível. Escolheu uma morte dolorosa, mas que a purificasse de vez, de corpo e espírito. Sozinha e perdida durante a noite, com o resto de sua vida em suas mãos, deve ter se desesperado. Não soube o que fazer com a liberdade que lhe foi oferecida e se matou, selando sua vida com a do pai.

Ninguém sabia a verdade, só as mentiras construídas durantes os anos. As mortes de pai e filha seriam consideradas acidentais. Uma tragédia local, para ser lembrada como uma história pitoresca da região, um caso curioso.

Espero por Benites no hotel, com a conta fechada e as malas na recepção. Queria ir embora logo desse lugar e esquecer a sordidez do ser humano. Mesmo na guerra, onde os crimes mais bárbaros acontecem, eu nunca encontraria tamanha monstruosidade como a de Fritz, que estuprou e torturou a filha por anos. Para ele, Ana não era uma pessoa e sim uma propriedade, livre para ser usada como quisesse. Mais uma vez eu vislumbrava o lado negro das pessoas, mesmo quando não o procurava. O coronel deve aparecer a qualquer momento, por isso me despeço e prometo continuar minha história quando chegar à Bolívia. Que Deus tenha piedade de Ana, e de mim.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ILUMINAÇÃO

Ana foi tão submissa que ninguém imaginaria o final da história. Ela veio falar comigo, sem saber por que vinha. Estava tão perdida que tive de acompanhá-la de volta para casa. Não entendia minha presença, mas não recusava minhas argumentações. No caminho, ruma a sua casa, aconselhei-a a seguir sua vida, deixar o pai e ser feliz, pois ainda havia esta possibilidade. Ela dizia que não teria coragem. Eu falei durante todo o trajeto até chegarmos a sua casa. No portão, ficou sem saber o que fazer, por isso eu me convidei a entrar. Quando entramos, o velho nos esperava na sala, assistindo a televisão. Ele ficou estarrecido com a minha presença e gritou com Ana. Eu lhe disse: - Calma, senhor Fritz. Eu não vim lhe fazer mal, só vim acompanhar a sua filha para casa. Ela estava vagando, perdida. Resolvi trazê-la de volta para o senhor.

O velho pediu para eu ir embora, mas perguntei a Ana, se ela queria que eu fosse. Estava assustada, dividida e não recusou minha presença. Eu disse a Fritz: - Eu vim ajudar sua filha. Hoje é o dia de sua libertação. Ela precisa saber que eu sei a verdade dos abusos, castigos e do aprisionamento. Tudo isso acaba hoje, porque em breve você estará morto.

Eu me virei na direção de Ana e lhe falei: - Ele não pode mais te machucar, mas só você poderá se libertar.

Estendi-lhe a mão e pedi ajuda. Peguei uma almofada e ofereci a ela. Disse, baixinho: - Ele tem que ser punido pelo que fez com você. Lave você mesmo a sua honra, redima-se. Não é vingança, é justiça.

Segurei seu corpo e a conduzi até o pai. O velho pedia que Ana não fizesse, mas não tinha argumentos para lutar pela vida. Peguei sua mão com a almofada e a coloquei contra a cara de seu pai. Ela pressionou, cada vez mais. O velho tentava lutar, porém a fúria da mulher era maior. Estava excitada, tremia muito, mesmo depois de eu tirá-la de perto do corpo morto. Fritz não tinha resistido muito, já estava muito debilitado. Eu tentei confortá-la: - Não se preocupe, eles não descobrirão a verdade. Ele morreu enquanto assistia televisão.

Ela respondeu: - Ele conseguiu manchar minha inocência de novo, agora sou uma assassina.

Eu a abracei e impedi seu choro. Disse para ela esquecer tudo, ninguém descobriria a verdade. Ana ficou perturbada, a última coisa que queria é que todos ficassem sabendo dos abusos. Ela estava encurralada entre a sua consciência e a vergonha. Ligou para a polícia, avisando que o pai havia morrido tranquilamente no sofá. Eu decidi voltar para o hotel. Pedi que me procurasse se houvesse problemas. Fui embora arrumar minhas malas, afinal amanhã é o dia de minha partida. Pensei em voltar mais tarde em sua casa, mas achei melhor não, poderiam levantar suspeitas. Como será que Ana enfrentará à noite naquela casa mal-assombrada?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

AJUDA

Sentei na varanda do hotel, com um cigarro e uma cerveja. Eu fiquei olhando o lago, absorto em meus pensamentos. Estava feliz, dizendo a mim mesmo que na Bolívia minha vida seria perfeita. A guerra sempre proporciona espólios para seus participantes e eu teria o que quisesse.

Começava a cochilar quando o balconista do hotel rompeu pela porta e ma avisou que uma mulher queria falar comigo. Meu coração acelerou, pois só poderia ser Ana. Ela me esperava na frente do hotel, com uma roupa branca e cabelos soltos. Quando me aproximei, seus olhos tristes me fitaram. Ana pediu para conversar em particular, à beira do lago. Ela partiu e eu a segui, ainda meio atordoado. Andamos alguns metros até ela parar perto do pequeno píer do hotel. Ana cruzou os braços e me perguntou sobre os meus ferimentos. Eu lhe respondi, suavemente: - Vão melhorar. Ainda há esperança para mim.

Ela sorriu, satisfeita com a constatação. Não sabia que eu já conhecia a sua história, e disfarçava segurança. Não gritou pedindo ajuda, preferia ajudar a manter a mentira. Eu disse a ela: - Você é uma verdadeira heroína, Ana. Deve ser mais forte que a maioria dos homens.

Queria que ela gritasse, confessasse os abusos. Mas ela permaneceu calada. E eu não me segurei: - Seu pai falou muito de você no hospital. Disse que você é o maior amor de sua vida. Ele disse que lhe amava muito, desde que você era adolescente.

A mulher ficou perturbada. Disse que tinha que ir embora e desejou boa sorte. Antes de ela ir, ofereci: - Estou indo embora neste final de semana, por isso gostaria de oferecer um último favor. Gostaria de ajudá-la, afinal, não foi por isso que você veio me procurar?

Minhas palavras assustaram Ana. Ela pedia ajuda, embora não falasse. Eu me aproximei e ofereci minha companhia até a sua casa.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CONFISSÃO

Combinei com o jovem boliviano que partiria no final de semana para a Bolívia. Benites me levará até o aeroporto, onde eu pegarei um avião. Chegando à capital boliviana, eu devo procurar um hotel, onde um contato irá me encontrar. Tenho dois dias para fazer as malas e acertar minhas contas em San Bernardino.

Fiquei sabendo pelo gerente que Ana e seu pai haviam retornado hoje à sua casa, trazidos por um táxi de Assunção. Ele achou que eu me interessaria, já que tive meu braço quebrado pela mulher. O gerente queria ver confusão, esperava que eu me aproveitasse da situação para fazer alguma coisa contra a família. Eu, para ser sincero, não esperava que os dois fossem voltar juntos a San Bernardino. Imaginei que o velho confessaria ou que Ana acabaria entregando a verdade, com seus ataques de pânico no hospital. Fritz iria para a prisão e Ana ficaria livre.

Fiquei inconformado com a notícia, por isso precisava confirmar se o gerente dizia a verdade. Depois de tudo que descobri, não podia deixar aquela história e continuar como se não conhecesse as suas mentiras. Saí do hotel e fui até a frente da casa de Ana. Fiquei parado alguns minutos, convencido de que tinha que entrar na casa e resgatar a mulher. A casa estava toda fechada e eu imaginava como entraria. Enquanto tentava achar a resposta, Ana abriu uma janela e me encarou por alguns instantes. Ela perguntou o que eu queria. Eu lhe respondi, automaticamente: - Eu só queria saber se você está bem.

Ana corou. Confirmou seu bom estado e esperou por minhas palavras. Mas eu não tive coragem de lhe dizer nada. Eu queria consolá-la, contar que sabia de seu sofrimento, mas ela havia voltado para casa com o pai. Sua chance de contar a verdade e denunciar o pai tinha sido no hospital. Talvez os médicos não imaginassem os abusos, nem viram seus sinais, mas o fato é que ela não pediu ajuda. Eu lhe disse, esperando por uma resposta: - Ana, eu vim lhe pedir desculpas. Seu pai me convenceu de que você não é culpada pelos acidentes que ocorrem comigo. Ele me falou tanto de você, contou tantos detalhes de sua vida que me convenci. Sinto entender toda a sua vida, você é inocente.

Eu fiz uma pausa. Continuei: - Bom, vou embora. Só queria me despedir e resolver nossos mal-entendidos. Não queria que você ficasse com uma má impressão de mim. Sou apenas um homem, tentando fazer o que é correto. Às vezes me excedo, porém sempre tento me manter fiel à verdade. Desculpe se errei, mas agora terei de deixá-la.

Dei um passo atrás e lhe disse, melancolicamente: - Preciso ir embora, espero que você e seu pai possam viver em paz, juntos, pelo resto de suas vidas. E tenho certeza que vocês ainda viverão muitos anos juntos, pois o doutor é forte. Vai viver para sempre.

A mulher ficou confusa, mas pareceu entender o que eu lhe dizia. Ela desviou o olhar e fechou a janela, encerrando nossa conversa.

terça-feira, 7 de julho de 2009

UM OBJETIVO

Benites se aproximou do lago, junto ao agente boliviano. Achei melhor conversar reservadamente, em terreno aberto e longe de pessoas curiosas. O tempo estava aberto, pela primeira vez em dias. A conversa com o jovem enviado pelo governador de Santa Cruz, principal adversário de Evo Morales, correu bem. O rapaz era muito dedicado e realmente se importava com a causa. Não devia ter mais de 25 anos, provavelmente filho de alguém importante. Falava em libertar o povo da tirania e clamava por democracia e justiça. Tive vontade de rir pensando no rapaz, que realmente acreditava na justiça e liberdade concebida através de um golpe de estado.

Ele falou longamente explicando a luta na Bolívia e me ofereceu um bom salário para ajudar o serviço de inteligência da província rebelde. Benites olhou-me com olhos tristes, implorando para eu não aceitar. Parece que dizia: “nós já sofremos demais. Estamos velhos e precisamos descansar. Morra em paz, Vargas”.

Mas estou decidido a continuar. Entregar-me a um objetivo, seja ele qual for, é a única coisa que me confortará pelo resto da minha vida. “Se parar, eu morro”, pensava. Apertei a mão do boliviano e selei o acordo. Minha vida, agora, faz sentido.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

RECOMENDAÇÕES

Benites avisou: - O boliviano chega hoje. Amanhã bem cedo nós vamos aparecer em San Bernardino para conversar.

O momento que tanto esperei está chegando. Em breve partirei para lutar contra as forças de Morales e Chávez. Mas depois que eu partir o que acontecerá com a pobre Ana? Seu pai ainda lhe fazia mal, envenenando sua vida. Enquanto o velho não morresse, ela não estaria livre. A vida de Ana está presa a de um cadáver, que se recusa a morrer.

No entanto, sinto que já me envolvi demais. Quebrei meu braço e o resto de decência que havia em mim. Não quero mais me envolver na história.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O MUNDO DELA

Tenho um fraco pelos olhos femininos, tristes, profundos e melancólicos. O sofrimento que transmitem é belo. Ana tinha esse olhar, que me pedia ajuda. Apesar de eu nunca resistir a esses pedidos, a história tinha ido longe demais e já ameaçava minha viagem para a Bolívia.

Eu não sei onde estava com a cabeça quando me joguei na frente do carro de Ana. Voltava da minha caminhada matinal quando vi o carro dela retornando da cidade. O veículo se aproximou e pude ver a mulher dirigindo concentrada. Ela virou o rosto na direção do pai, que estava no banco de trás. Naquele momento eu me entreguei a uma idéia, de que poderia conhecê-la se ela tentasse me atropelar. No entanto, eu não pretendia que ela me acertasse. Foi uma decisão estúpida, com certeza, mas seus olhos não me deixavam em paz.

Agora, estou com o braço quebrado e cheio de dúvidas, que só Ana pode responder. Eu descobri parte da história, mas o final pertence a ela.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

REVELAÇÕES

A vida de Ana, como filha abnegada, era um embuste. Ela sempre foi uma prisioneira, escrava dos desejos do pai. Para disfarçar sua ausência, o velho contou aos seus conhecidos que ela tinha ido estudar no exterior. Enquanto todos achavam que estava na Europa, na verdade, envelhecia trancada dentro do seu quarto, sem a possibilidade de resgate.

Eu perguntei: - O que mais você fez a ela, além de prendê-la? Conte-me dos estupros.

O velho calou, afastando o rosto da luz, protegendo-o na escuridão do quarto. Eu imaginava que o cárcere não era a única pena que Fritz empunha a sua filha, porém seu silêncio confirmava meus piores temores. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Insisti: - Confesse, Fritz. Eu sei o que você fez com Ana todos esses anos.

O velho respondeu secamente: - Não sabe de nada e não entende nada. Só eu e Ana sabemos o que aconteceu nos anos em que ela ficou comigo, em que eu cuidei dela. Acredite no que quiser, seu doente. Me mate se quiser, porém essa é a verdade.

As palavras de Fritz me fizeram entender. Jamais confessaria, mesmo que eu o torturasse. Ele preferia morrer, antes de revelar a sua verdadeira face. Antes de tudo era um narcisista, pensava na sua imagem. O velho podia viver com o cárcere, mas não com o incesto. Ele não confessaria, porém Ana ainda poderia revelar o final da história. Mas não esta noite.

Vesti minhas roupas e sai do hospital. Deixei o velho vivo, sozinho com seus arrependimentos. Rondei o resto da noite por Assunção, tentando entender. Mas será que alguém como Fritz poderia ser compreendido? Infelizmente, não. O ser humano nunca encontrará a razão do mal. Liguei para Benites pela manhã, acordando-o. Combinei encontrá-lo no hotel Granados para um café da manhã. Ele pagou o café e me levou de volta a San Bernardino. Durante a viagem me perguntou se eu gostaria de adiar a missão na Bolívia. Apesar do braço quebrado, disse que não desistiria. Aquilo era só um contratempo. O coronel indagou sobre a colisão. Respondi, friamente: - Foi mais um dos acidentes da vida. E ela parece ser cheia deles, sem motivo algum.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

POBRE GAROTA


Enquanto segurava o travesseiro contra o rosto do velho pensei: “é fácil matar”. O ato em si não é complicado, o mais difícil é admitir a insensatez e se deixar levar pelas emoções, abraçando um caminho sem volta. As circunstâncias às vezes nos impelem, nos empurram nos braços do inevitável. O tiro na cabeça do assassino de Júlia foi uma dessas circunstâncias especiais. Mas esse caso tem a ver com justiça, não vingança. E por justiça eu também segurava o travesseiro no rosto de Fritz. Eu soltei o travesseiro, deixando o velho respirar novamente. Eu queria respostas, por isso disse-lhe: - Eu te deixo viver se me contar o que aconteceu com Ana. Diga-me a verdade, pois eu saberei se mentir. Eu já sei de tudo.

Ameacei sufocá-lo novamente. O velho entendeu que eu iria torturá-lo até ele confessar. “Proteção” foi a primeira palavra que pronunciou. Começou a falar baixinho, justificando o injustificável. O mundo distorcido de Fritz emergia, alterando a verdade, a vida em família e o amor. Ele começou dizendo que Ana se revoltou com a morte da mãe e que quis estudar no exterior. Como pai, quis proteger a garotinha que não conhecia nada além de San Bernardino e Assunção. Ela era frágil demais, não suportaria as decepções da vida e das pessoas. Por isso, ele achou melhor trancar a garota em casa. Fritz dispensou a empregada e passou semanas confinado com a filha dentro de casa. Ele argumentou: - Eu fiquei o tempo todo ao seu lado, explicando porque a mantinha presa. Ela se tornou tímida, pois entendeu os perigos do mundo. No final, Ana entendeu o que fiz por ela.

Eu lhe disse: - Você a forçou a acreditar. Mas isso não quer dizer que algum dia ela acreditou em suas mentiras. Ana fingiu para te enganar, para que não a punisse mais. Não argumente, só confesse. Onde você a mantinha?

Fritz respondeu friamente: - Eu a prendia no quarto. Tapei as janelas, coloquei um trinco em sua porta e tranquei. Abria a porta só para alimentá-la e trocar suas roupas.

O velho finalmente dizia a verdade. Temi pelo que contaria.

terça-feira, 30 de junho de 2009

OS MALES DO MUNDO

O velho estava acuado, sem forças para lutar. Nem ao menos tinha força para gritar e pedir ajuda. Foi tão debilitado pela vida, e pelo acidente recente, que não reagia. Eu poderia matá-lo com facilidade, mas ele ainda não deveria morrer. Eu não tinha provas, nem confissões. Só tinha minha antipatia pelo homem e suspeitas. Pressionei o velho: - Confesse, morra com a consciência tranqüila. O que você fez de sua vida?

O homem ficou confuso, balbuciando algumas palavras sem nexo. Eu coloquei minha mão direita no seu peito, próxima ao pescoço. – Você está velho e doente, eles acreditarão que morreu durante o sono. Confesse e se salve. Sua vida, pela verdade. Por que sua filha tem tanto medo?

O velho esbravejou: - Eu nunca a machuquei, só a protegi. Sempre a guardei de todos os males do mundo.

Ele continuava mentindo e eu, impaciente. Peguei o travesseiro e deitei contra seu rosto.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

PROCEDIMENTO PADRÃO

O hospital ficou tranqüilo depois da meia-noite. Não havia enfermeiros andando nos corredores e os plantonistas, tentavam dormir. A porta do quarto estava fechada e as luzes apagadas. Só a claridade do corredor, escapando pela fresta da porta, iluminava os pés das duas camas. O velho dormia ao meu lado, ou pelo menos fingia estar. Levantei, coloquei a tipóia no meu braço esquerdo e fui até a sua cama, sorrateiramente.

Aproximei-me do corpo do velho, que à meia luz, parecia morto. Ele percebeu minha aproximação e perguntou-me, com dificuldade: - Não se aproxime, seu maldito. Você tentou me matar no pântano, queria que eu me afogasse. Quem é você?

Eu sorri e gracejei: - Eu sou o passado que busca pela verdade.

O velho se calou. Por isso, continuei: - Eu sei tudo sobre você, Fritz. Sua vinda para o Paraguai, sua mulher morta e sua filha. Você tem razão quando diz que eu tentei te matar naquele pântano. Ou você irá argumentar que não merece morrer?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

OBSERVAÇÃO

Cheguei à estrada depois de me arrastar para fora do charque, imundo e furioso. Meu braço já devia estar infectado com alguma doença tropical e eu estava ali, perdido no meio do nada. Um caminhão surgiu no horizonte, me viu e parou para ajudar. O caminhoneiro ajudou Ana a retirar o seu pai da água fétida e os dois carregaram o velho até caminhão. Como ela ainda tinha forças, eu não sei.

Depois de quase uma hora de viagem até o hospital, fomos atendidos na unidade de emergência em Assunção. Engessaram meu braço e me colocaram em observação por 24 horas. O velho não havia sofrido nada, só tomou alguns antibióticos por prevenção. Ana que no começo se mostrou tão calma, ficou tão nervosa com a atenção dos médicos e policiais, que quase teve um surto. Ela primeiro emudeceu e depois chorou copiosamente. Os médicos tentaram acalmá-la, mas acabaram tendo que lhe dar uma dose generosa de tranqüilizantes.

Eu e o velho fomos colocados no mesmo quarto, em observação.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O PÂNTANO


O carro seguia constante pela estrada. Ana não descuidava da direção, apesar do nervosismo. Consultava os retrovisores e a velocidade maquinalmente, porém minhas reclamações abalavam seus pensamentos. O velho gritou, pedindo que respeitasse sua filha. A mulher, ouvindo o tom áspero do pai, se contraiu com medo, mais aflita do que com os meus gritos raivosos. Eu a pressionei: - Você devia dirigir olhando para frente e não para o banco de trás.

Ela se virou para mim. Seus olhos perderam vagarosamente o torpor, deixando-os renascer. Ana tentou dizer alguma coisa, mas sua fala não veio, pois acabou se assustando com um caminhão que vinha no sentido contrário. O carro saiu da estrada, destruiu uma cerca e acabou no charco, verde e lamacento, que cercava a estrada. O impacto com a água me atordoou, mas felizmente o cinto de segurança me protegeu. Tirei-o e procurei o corpo de Ana ao meu lado. Ela tentava se soltar ao mesmo tempo em que buscava salvar o pai. Na sua confusão, entre a própria vida e a do velho, ajudei-a se livrar do cinto e a empurrei para fora do carro, para salva-la. Ela gritava pelo pai enquanto saíamos pela porta, mas eu lhe disse: - Nós não vamos conseguir alcançá-lo, o carro está afundando rápido. Precisamos sair daqui.

Meu braço esquerdo doía e nossos pés mal tocavam o fundo lamacento do charque. Sem poder usá-los, lutei mesmo assim pela minha vida e a de Ana. Ela conseguiu desvencilhar-se do meu braço e voltou ao carro, tentando salvar o pai. Para nossa surpresa, ele já havia conseguido se livrar do cinto e com a ajuda da água, vinha boiando em direção a porta. Ana o ajudou a sair, enquanto eu tentava sair daquele pântano.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

BATIDA

Fui atropelado esta manhã pelo carro de Ana. Eu voltava de uma das minhas caminhadas, quando ela, trazendo seu pai de um exame médico, bateu em mim. Cai, estatelado no chão, perto da entrada de sua casa. Ana saiu do carro e veio ver se eu estava bem. Foi a primeira vez que ouvi sua voz, e ela era doce e tímida. Ficou preocupada comigo e se ofereceu para me levar até a cidade. Quando cai, senti uma dor no braço esquerdo, onde havia se apoiado todo o meu corpo. Ela me tocou e constatou o pior, eu precisava realmente ir a um hospital. Achei melhor aceitar o seu socorro para ir logo. Entrei no carro, do lado do carona. O pai de Ana estava sentado no banco de trás, bem atrás de mim. Ela apresentou o velho. Eu me virei para cumprimentá-lo, e ele acenou com cabeça: - Mucho gusto!

Ana não se apresentou, por isso tive de perguntar seu nome. Ela respondeu, envergonhada. Depois das apresentações, os dois, nem pai e filha, falaram mais nada. Eles não me fizeram uma pergunta, nem trocaram nenhuma palavra. Ana dirigia concentrada e eu não conseguia ver o velho. Eu decidi arriscar e puxei conversa. Comecei a perguntar sobre a casa e o carro, mas ela respondia monossilabicamente, sem dar espaços para conversas. Como ela não respondia, fui mais agressivo. Segurei meu braço quebrado e perguntei se não tinha me visto na calçada caminhando. Ana ficou nervosa, pediu desculpas. O pai dela se inquietou no banco de trás. Parece que saíram do coma.

terça-feira, 23 de junho de 2009

NOITES PAULISTANAS

Apesar de eu reclamar das noites, tenho dormido bem, um verdadeiro sono dos justos. Júlia foi embora quando apertei o gatilho em São Paulo. Ela não povoa mais meus sonhos, só minhas lembranças. Senti que a justiça foi feita e seu espírito podia descansar em paz. Eu fui o único que me levantei por Júlia, ainda que não tenha sido em vida. Mas lutei por ela, provei que não era descartável. Minha consciência está tranqüila, e não devo mais nada à garota. Depois que fiz justiça com o monstro que a assassinou, e perdi minha liberdade por isso, vou fazer o que quiser com o resto da minha vida. E minha vida ia para Bolívia, lutar.

Eu espero o encontro com o agente boliviano, membro da resistência. Decidi aumentar meus exercícios físicos e diminuir o número de cigarros. O momento é de grande concentração, não posso me permitir errar.

Durante as minhas caminhadas ainda observo a casa de Ana. Nenhuma novidade, apesar de eu ter aumentado a minha atenção. Perguntei sobre a família dela para algumas pessoas, muito discretamente, mas ninguém sabia de nada. A clausura de Ana era total, um verdadeiro cárcere monástico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

NOVIDADES


Boas notícias! Benites me ligou esta manhã confirmando o interesse dos bolivianos pelos meus serviços. O coronel se gabou, dizendo que havia falado muito bem de mim. Eu agradeci e perguntei os pormenores.

Um encontro seria necessário para fechar o acordo. Benites e os bolivianos acharam melhor acontecer no Paraguai, em San Bernardino. Eles viriam até mim e acertaríamos a história toda. Acho que será na próxima semana, mas eles ainda avisarão. Paciência é necessária agora, para manter a cabeça no lugar. A revolução se aproxima, eu posso sentir. As massas ao fundo, gritam e pedem as cabeças dos vermelhos. Uma chance de felicidade nasce em mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

ESPERANDO

Os finais de semana em San Bernardino são mais tristes nessa época do ano. O hotel fica quase vazio, com apenas três funcionários trabalhando. Às vezes surgem outros hóspedes, mas parecem fazer à mesma coisa, se esconder. Não querem saber de conversa, se trancam nos quartos e só saem para caminhar perto do lago. Eu procuro não enlouquecer, lembrando sempre das promessas da Bolívia. Em breve, eu sairei desse inferno pacífico, rumo a um caldeirão de problemas. A idéia me conforta e dá força para agüentar meus dias finais em San Bernardino.

Ainda rondo a casa de Ana. Desta vez vi o carro da família, um Ford da década de setenta. Não observei muito mais, para não levantar suspeitas. O povo das cidades pequenas fala demais e estão sempre observando. A última coisa que quero é me tornar alvo de suspeitas da população local. Apesar disso, Ana e seus mistérios não saem da minha cabeça. Conversando com os moradores não consegui descobrir muito mais, apenas que sua mãe morreu ainda na década de 70. Depois disso, ela foi para a faculdade e passou longos anos no estrangeiro. Quem me contou a história de Ana foi a minha principal fonte na cidade, o gerente do hotel. Ele era o único que sabia os detalhes mais íntimos dela, mas ainda sim,eram poucos.

Eu, com essa minha mania de tentar entender os outros, passava horas tentando decifrar a vida de Ana. Seria o amor tão grande assim entre os dois, para fazer uma filha desistir da vida no estrangeiro para cuidar do pai? Ou seria outra coisa que a fazia esquecer que era uma mulher bonita e desejável, mofando dentro de casa com um pai semimorto?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

OLHOS SINCEROS

Animado com a possibilidade de ir à Bolívia, ajudar na “liberação” de Santa Cruz, passei a ler tudo sobre o país. Comprei jornais, usei a vagarosa internet do hotel e até consegui alguns livros sobre a guerra entre o Paraguai e Bolívia. A situação no país piora a cada semana. Evo Morales já descobriu um plano para assassiná-lo, comandado pelos políticos do departamento de Santa Cruz. O plano usava assassinos estrangeiros, o que gerou uma trapalhada internacional. O governo boliviano mandou tropas para o estado, supostamente para reforçar a segurança na fronteira com o Brasil, depois que uma vala com seis brasileiros mortos foi achada. A Bolívia está à beira do abismo, com o separatismo e as potências locais empurrando-a cada vez mais para a beirada.

Não parava de chover em San Bernardino e o céu permanecia sempre cinzento. Apesar de o inverno no Paraguai estar no ápice, à temperatura não abaixou muito. O mormaço tropical não deixava esfriar os calores da terra. Por isso, adotei um guarda-chuva e uma jaqueta leve em minhas caminhadas. Passo na frente da casa de Ana todos os dias. Eles moram não muito longe do hotel e, apesar de eu passar por lá quase todas as manhãs e em algumas tardes esporádicas, nunca consegui vê-los. Nem o pai nem a filha. Os locais disseram que eram sós, vivendo em uma casa simples sem nenhum empregado. Em uma vendinha próxima, a dona do lugar me ofereceu docinhos locais e um pouco mais da história de Ana. Segundo a velha índia, ela nunca saia de casa sem o pai e comprava na venda ocasionalmente. Tinha um carro velho, que usava para ir à cidade de vez em quando. Falava mal o espanhol, com um forte sotaque alemão.

Comprei um doce de leite e continuei minha caminhada sem rumo. Pensava em Ana, é claro. Ela tinha uma mãe morta e um pai quase lá. Sempre viveu por aqui, mas mesmo assim, nem consegue falar o idioma local. Os olhos de Ana não me enganaram naquele dia à beira do lago. Eles prometiam mistério e foram sinceros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

PERGUNTAS E MENTIRAS

Resolvi incluir a casa de Ana no percurso das minhas caminhadas diárias. Por mais que eu tentasse não me envolver, minha consciência não me deixava em paz. E se seu pai fosse realmente um criminoso de guerra? Não foi difícil descobrir o endereço da família com o gerente do hotel, que também me contou o nome do pai: chamava-se Fritz. Ele guardava segredos, sua velhice decrépita era prova. Ninguém tão velho poderia ser inocente. Ainda mais ele, que mal podia respirar. Não sou religioso, mas seu estado devia ser uma punição divina pelos crimes que não pagou na terra.

Fritz poderia ter falsificado seu nome e inventado uma nova identidade. Fugir de sua vida antiga na Alemanha teria sido a parte fácil do acobertamento de seus crimes, o difícil seria escondê-los pelo resto de sua vida. Eu mesmo usava um nome falso no hotel. Havia me registrado com nome de Alberto Aparecido do Nascimento e pago em dinheiro, para não deixar rastros. Inventei também uma história de cobertura, dizendo aos funcionários do hotel que era apenas um fazendeiro viúvo de Corumbá que estava passando uma temporada em San Bernardino, onde eu e minha falecida esposa havíamos tido nossa noite de núpcias. Contava aos funcionários sobre meu casamento feliz e de meus filhos ingratos, que estavam sempre tentando me roubar. Os empregados sentiam pena de minha história e não desconfiavam da mentira. Simpáticos, criticavam os filhos da nova geração, que não respeitam mais os pais. – Maldita juventude, repetiam eles.

No entanto, sabia que essa história não se sustentaria por muito tempo. Logo teria que me mudar também, pois as pessoas desconfiam, mesmo quando convencidas. Fritz deve conhecer essa verdade, por isso vive recluso. A história permanece nebulosa, mas só uma pergunta realmente me interessa: Ana é uma filha caridosa ou uma prisioneira?

terça-feira, 16 de junho de 2009

UM OLHAR ENIGMÁTICO

As conexões de internet no Paraguai são muito ruins. Consultar um simples e-mail é um ato de paciência e controle do temperamento. A vontade é de socar o único computador do hotel que não oferece nenhuma velocidade. Apesar disso, o tédio e a curiosidade me fizeram pesquisar um pouco mais da história de San Bernardino. Não havia muito, a não ser um link sobre criminosos de guerra nazistas que tinham fugido para a América do Sul. Fiquei surpreso ao saber que até o carrasco Mengele tinha passado algum tempo na cidade. Desliguei o computador, mas fiquei com a história na cabeça.

Não demorou muito para eu lembrar da mulher que passeava com seu pai à beira do lago. Divaguei e imaginei o velho fugindo do julgamento de crimes de guerra, escapando de Berlim para a pacata San Bernardino. O pai de Ana tinha uma expressão de superioridade em seu rosto, mas não era nojo, era reprovação à cultura local. Uma cultura que eles não achavam adequada aos seus modos civilizados, nórdicos, puros, ou qualquer outra bobeira racial.

Ana ainda me intrigava, seu olhar era poderoso demais para ser esquecido. Ele penetrou em mim e ficou guardado. Antes de sair desse lugar, gostaria de conversar com ela, ouvir sua voz. Será que seria tão poderosa quanto seu olhar?