quarta-feira, 24 de junho de 2009

BATIDA

Fui atropelado esta manhã pelo carro de Ana. Eu voltava de uma das minhas caminhadas, quando ela, trazendo seu pai de um exame médico, bateu em mim. Cai, estatelado no chão, perto da entrada de sua casa. Ana saiu do carro e veio ver se eu estava bem. Foi a primeira vez que ouvi sua voz, e ela era doce e tímida. Ficou preocupada comigo e se ofereceu para me levar até a cidade. Quando cai, senti uma dor no braço esquerdo, onde havia se apoiado todo o meu corpo. Ela me tocou e constatou o pior, eu precisava realmente ir a um hospital. Achei melhor aceitar o seu socorro para ir logo. Entrei no carro, do lado do carona. O pai de Ana estava sentado no banco de trás, bem atrás de mim. Ela apresentou o velho. Eu me virei para cumprimentá-lo, e ele acenou com cabeça: - Mucho gusto!

Ana não se apresentou, por isso tive de perguntar seu nome. Ela respondeu, envergonhada. Depois das apresentações, os dois, nem pai e filha, falaram mais nada. Eles não me fizeram uma pergunta, nem trocaram nenhuma palavra. Ana dirigia concentrada e eu não conseguia ver o velho. Eu decidi arriscar e puxei conversa. Comecei a perguntar sobre a casa e o carro, mas ela respondia monossilabicamente, sem dar espaços para conversas. Como ela não respondia, fui mais agressivo. Segurei meu braço quebrado e perguntei se não tinha me visto na calçada caminhando. Ana ficou nervosa, pediu desculpas. O pai dela se inquietou no banco de trás. Parece que saíram do coma.

Um comentário:

  1. Fiquei impressionada com este seu texto. Belo. Real e triste. Bjs

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