San Bernardino amanheceu com uma pequena coluna de fumaça, que levava ao céu os restos da casa de Ana. Logo que desci para o café da manhã notei a comoção dos funcionários e quando sai às ruas vi, por mim mesmo, a fumaça cinza e fúnebre. Corri para a casa de Ana já esperando encontrar o pior.
Na entrada da casa, vizinhos e policiais se aglomeravam. Perguntei à vizinha, a que tinha uma venda perto da casa, o que havia acontecido. Ela viu o fogo tomando toda casa rapidamente, por causa da madeira. Ninguém sabia de Ana, nem mesmo os policiais. Eles achavam que seu corpo carbonizado estava entre os escombros, esperando para ser descoberto. “O que causou o fogo?”, indaguei a um policial. O homem respondeu desgostoso, que ainda não sabiam.
De qualquer jeito, não adiantaria saber como ela se queimou. A culpa a consumiu e fez Ana se matar desse jeito horrível. Escolheu uma morte dolorosa, mas que a purificasse de vez, de corpo e espírito. Sozinha e perdida durante a noite, com o resto de sua vida em suas mãos, deve ter se desesperado. Não soube o que fazer com a liberdade que lhe foi oferecida e se matou, selando sua vida com a do pai.
Ninguém sabia a verdade, só as mentiras construídas durantes os anos. As mortes de pai e filha seriam consideradas acidentais. Uma tragédia local, para ser lembrada como uma história pitoresca da região, um caso curioso.
Espero por Benites no hotel, com a conta fechada e as malas na recepção. Queria ir embora logo desse lugar e esquecer a sordidez do ser humano. Mesmo na guerra, onde os crimes mais bárbaros acontecem, eu nunca encontraria tamanha monstruosidade como a de Fritz, que estuprou e torturou a filha por anos. Para ele, Ana não era uma pessoa e sim uma propriedade, livre para ser usada como quisesse. Mais uma vez eu vislumbrava o lado negro das pessoas, mesmo quando não o procurava. O coronel deve aparecer a qualquer momento, por isso me despeço e prometo continuar minha história quando chegar à Bolívia. Que Deus tenha piedade de Ana, e de mim.
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segunda-feira, 13 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
ILUMINAÇÃO
Ana foi tão submissa que ninguém imaginaria o final da história. Ela veio falar comigo, sem saber por que vinha. Estava tão perdida que tive de acompanhá-la de volta para casa. Não entendia minha presença, mas não recusava minhas argumentações. No caminho, ruma a sua casa, aconselhei-a a seguir sua vida, deixar o pai e ser feliz, pois ainda havia esta possibilidade. Ela dizia que não teria coragem. Eu falei durante todo o trajeto até chegarmos a sua casa. No portão, ficou sem saber o que fazer, por isso eu me convidei a entrar. Quando entramos, o velho nos esperava na sala, assistindo a televisão. Ele ficou estarrecido com a minha presença e gritou com Ana. Eu lhe disse: - Calma, senhor Fritz. Eu não vim lhe fazer mal, só vim acompanhar a sua filha para casa. Ela estava vagando, perdida. Resolvi trazê-la de volta para o senhor.
O velho pediu para eu ir embora, mas perguntei a Ana, se ela queria que eu fosse. Estava assustada, dividida e não recusou minha presença. Eu disse a Fritz: - Eu vim ajudar sua filha. Hoje é o dia de sua libertação. Ela precisa saber que eu sei a verdade dos abusos, castigos e do aprisionamento. Tudo isso acaba hoje, porque em breve você estará morto.
Eu me virei na direção de Ana e lhe falei: - Ele não pode mais te machucar, mas só você poderá se libertar.
Estendi-lhe a mão e pedi ajuda. Peguei uma almofada e ofereci a ela. Disse, baixinho: - Ele tem que ser punido pelo que fez com você. Lave você mesmo a sua honra, redima-se. Não é vingança, é justiça.
Segurei seu corpo e a conduzi até o pai. O velho pedia que Ana não fizesse, mas não tinha argumentos para lutar pela vida. Peguei sua mão com a almofada e a coloquei contra a cara de seu pai. Ela pressionou, cada vez mais. O velho tentava lutar, porém a fúria da mulher era maior. Estava excitada, tremia muito, mesmo depois de eu tirá-la de perto do corpo morto. Fritz não tinha resistido muito, já estava muito debilitado. Eu tentei confortá-la: - Não se preocupe, eles não descobrirão a verdade. Ele morreu enquanto assistia televisão.
Ela respondeu: - Ele conseguiu manchar minha inocência de novo, agora sou uma assassina.
Eu a abracei e impedi seu choro. Disse para ela esquecer tudo, ninguém descobriria a verdade. Ana ficou perturbada, a última coisa que queria é que todos ficassem sabendo dos abusos. Ela estava encurralada entre a sua consciência e a vergonha. Ligou para a polícia, avisando que o pai havia morrido tranquilamente no sofá. Eu decidi voltar para o hotel. Pedi que me procurasse se houvesse problemas. Fui embora arrumar minhas malas, afinal amanhã é o dia de minha partida. Pensei em voltar mais tarde em sua casa, mas achei melhor não, poderiam levantar suspeitas. Como será que Ana enfrentará à noite naquela casa mal-assombrada?
O velho pediu para eu ir embora, mas perguntei a Ana, se ela queria que eu fosse. Estava assustada, dividida e não recusou minha presença. Eu disse a Fritz: - Eu vim ajudar sua filha. Hoje é o dia de sua libertação. Ela precisa saber que eu sei a verdade dos abusos, castigos e do aprisionamento. Tudo isso acaba hoje, porque em breve você estará morto.
Eu me virei na direção de Ana e lhe falei: - Ele não pode mais te machucar, mas só você poderá se libertar.
Estendi-lhe a mão e pedi ajuda. Peguei uma almofada e ofereci a ela. Disse, baixinho: - Ele tem que ser punido pelo que fez com você. Lave você mesmo a sua honra, redima-se. Não é vingança, é justiça.
Segurei seu corpo e a conduzi até o pai. O velho pedia que Ana não fizesse, mas não tinha argumentos para lutar pela vida. Peguei sua mão com a almofada e a coloquei contra a cara de seu pai. Ela pressionou, cada vez mais. O velho tentava lutar, porém a fúria da mulher era maior. Estava excitada, tremia muito, mesmo depois de eu tirá-la de perto do corpo morto. Fritz não tinha resistido muito, já estava muito debilitado. Eu tentei confortá-la: - Não se preocupe, eles não descobrirão a verdade. Ele morreu enquanto assistia televisão.
Ela respondeu: - Ele conseguiu manchar minha inocência de novo, agora sou uma assassina.
Eu a abracei e impedi seu choro. Disse para ela esquecer tudo, ninguém descobriria a verdade. Ana ficou perturbada, a última coisa que queria é que todos ficassem sabendo dos abusos. Ela estava encurralada entre a sua consciência e a vergonha. Ligou para a polícia, avisando que o pai havia morrido tranquilamente no sofá. Eu decidi voltar para o hotel. Pedi que me procurasse se houvesse problemas. Fui embora arrumar minhas malas, afinal amanhã é o dia de minha partida. Pensei em voltar mais tarde em sua casa, mas achei melhor não, poderiam levantar suspeitas. Como será que Ana enfrentará à noite naquela casa mal-assombrada?
quinta-feira, 9 de julho de 2009
AJUDA
Sentei na varanda do hotel, com um cigarro e uma cerveja. Eu fiquei olhando o lago, absorto em meus pensamentos. Estava feliz, dizendo a mim mesmo que na Bolívia minha vida seria perfeita. A guerra sempre proporciona espólios para seus participantes e eu teria o que quisesse.
Começava a cochilar quando o balconista do hotel rompeu pela porta e ma avisou que uma mulher queria falar comigo. Meu coração acelerou, pois só poderia ser Ana. Ela me esperava na frente do hotel, com uma roupa branca e cabelos soltos. Quando me aproximei, seus olhos tristes me fitaram. Ana pediu para conversar em particular, à beira do lago. Ela partiu e eu a segui, ainda meio atordoado. Andamos alguns metros até ela parar perto do pequeno píer do hotel. Ana cruzou os braços e me perguntou sobre os meus ferimentos. Eu lhe respondi, suavemente: - Vão melhorar. Ainda há esperança para mim.
Ela sorriu, satisfeita com a constatação. Não sabia que eu já conhecia a sua história, e disfarçava segurança. Não gritou pedindo ajuda, preferia ajudar a manter a mentira. Eu disse a ela: - Você é uma verdadeira heroína, Ana. Deve ser mais forte que a maioria dos homens.
Queria que ela gritasse, confessasse os abusos. Mas ela permaneceu calada. E eu não me segurei: - Seu pai falou muito de você no hospital. Disse que você é o maior amor de sua vida. Ele disse que lhe amava muito, desde que você era adolescente.
A mulher ficou perturbada. Disse que tinha que ir embora e desejou boa sorte. Antes de ela ir, ofereci: - Estou indo embora neste final de semana, por isso gostaria de oferecer um último favor. Gostaria de ajudá-la, afinal, não foi por isso que você veio me procurar?
Minhas palavras assustaram Ana. Ela pedia ajuda, embora não falasse. Eu me aproximei e ofereci minha companhia até a sua casa.
Começava a cochilar quando o balconista do hotel rompeu pela porta e ma avisou que uma mulher queria falar comigo. Meu coração acelerou, pois só poderia ser Ana. Ela me esperava na frente do hotel, com uma roupa branca e cabelos soltos. Quando me aproximei, seus olhos tristes me fitaram. Ana pediu para conversar em particular, à beira do lago. Ela partiu e eu a segui, ainda meio atordoado. Andamos alguns metros até ela parar perto do pequeno píer do hotel. Ana cruzou os braços e me perguntou sobre os meus ferimentos. Eu lhe respondi, suavemente: - Vão melhorar. Ainda há esperança para mim.
Ela sorriu, satisfeita com a constatação. Não sabia que eu já conhecia a sua história, e disfarçava segurança. Não gritou pedindo ajuda, preferia ajudar a manter a mentira. Eu disse a ela: - Você é uma verdadeira heroína, Ana. Deve ser mais forte que a maioria dos homens.
Queria que ela gritasse, confessasse os abusos. Mas ela permaneceu calada. E eu não me segurei: - Seu pai falou muito de você no hospital. Disse que você é o maior amor de sua vida. Ele disse que lhe amava muito, desde que você era adolescente.
A mulher ficou perturbada. Disse que tinha que ir embora e desejou boa sorte. Antes de ela ir, ofereci: - Estou indo embora neste final de semana, por isso gostaria de oferecer um último favor. Gostaria de ajudá-la, afinal, não foi por isso que você veio me procurar?
Minhas palavras assustaram Ana. Ela pedia ajuda, embora não falasse. Eu me aproximei e ofereci minha companhia até a sua casa.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
RECOMENDAÇÕES
Benites avisou: - O boliviano chega hoje. Amanhã bem cedo nós vamos aparecer em San Bernardino para conversar.
O momento que tanto esperei está chegando. Em breve partirei para lutar contra as forças de Morales e Chávez. Mas depois que eu partir o que acontecerá com a pobre Ana? Seu pai ainda lhe fazia mal, envenenando sua vida. Enquanto o velho não morresse, ela não estaria livre. A vida de Ana está presa a de um cadáver, que se recusa a morrer.
No entanto, sinto que já me envolvi demais. Quebrei meu braço e o resto de decência que havia em mim. Não quero mais me envolver na história.
O momento que tanto esperei está chegando. Em breve partirei para lutar contra as forças de Morales e Chávez. Mas depois que eu partir o que acontecerá com a pobre Ana? Seu pai ainda lhe fazia mal, envenenando sua vida. Enquanto o velho não morresse, ela não estaria livre. A vida de Ana está presa a de um cadáver, que se recusa a morrer.
No entanto, sinto que já me envolvi demais. Quebrei meu braço e o resto de decência que havia em mim. Não quero mais me envolver na história.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
O MUNDO DELA
Tenho um fraco pelos olhos femininos, tristes, profundos e melancólicos. O sofrimento que transmitem é belo. Ana tinha esse olhar, que me pedia ajuda. Apesar de eu nunca resistir a esses pedidos, a história tinha ido longe demais e já ameaçava minha viagem para a Bolívia.
Eu não sei onde estava com a cabeça quando me joguei na frente do carro de Ana. Voltava da minha caminhada matinal quando vi o carro dela retornando da cidade. O veículo se aproximou e pude ver a mulher dirigindo concentrada. Ela virou o rosto na direção do pai, que estava no banco de trás. Naquele momento eu me entreguei a uma idéia, de que poderia conhecê-la se ela tentasse me atropelar. No entanto, eu não pretendia que ela me acertasse. Foi uma decisão estúpida, com certeza, mas seus olhos não me deixavam em paz.
Agora, estou com o braço quebrado e cheio de dúvidas, que só Ana pode responder. Eu descobri parte da história, mas o final pertence a ela.
Eu não sei onde estava com a cabeça quando me joguei na frente do carro de Ana. Voltava da minha caminhada matinal quando vi o carro dela retornando da cidade. O veículo se aproximou e pude ver a mulher dirigindo concentrada. Ela virou o rosto na direção do pai, que estava no banco de trás. Naquele momento eu me entreguei a uma idéia, de que poderia conhecê-la se ela tentasse me atropelar. No entanto, eu não pretendia que ela me acertasse. Foi uma decisão estúpida, com certeza, mas seus olhos não me deixavam em paz.
Agora, estou com o braço quebrado e cheio de dúvidas, que só Ana pode responder. Eu descobri parte da história, mas o final pertence a ela.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
REVELAÇÕES
A vida de Ana, como filha abnegada, era um embuste. Ela sempre foi uma prisioneira, escrava dos desejos do pai. Para disfarçar sua ausência, o velho contou aos seus conhecidos que ela tinha ido estudar no exterior. Enquanto todos achavam que estava na Europa, na verdade, envelhecia trancada dentro do seu quarto, sem a possibilidade de resgate.
Eu perguntei: - O que mais você fez a ela, além de prendê-la? Conte-me dos estupros.
O velho calou, afastando o rosto da luz, protegendo-o na escuridão do quarto. Eu imaginava que o cárcere não era a única pena que Fritz empunha a sua filha, porém seu silêncio confirmava meus piores temores. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Insisti: - Confesse, Fritz. Eu sei o que você fez com Ana todos esses anos.
O velho respondeu secamente: - Não sabe de nada e não entende nada. Só eu e Ana sabemos o que aconteceu nos anos em que ela ficou comigo, em que eu cuidei dela. Acredite no que quiser, seu doente. Me mate se quiser, porém essa é a verdade.
As palavras de Fritz me fizeram entender. Jamais confessaria, mesmo que eu o torturasse. Ele preferia morrer, antes de revelar a sua verdadeira face. Antes de tudo era um narcisista, pensava na sua imagem. O velho podia viver com o cárcere, mas não com o incesto. Ele não confessaria, porém Ana ainda poderia revelar o final da história. Mas não esta noite.
Vesti minhas roupas e sai do hospital. Deixei o velho vivo, sozinho com seus arrependimentos. Rondei o resto da noite por Assunção, tentando entender. Mas será que alguém como Fritz poderia ser compreendido? Infelizmente, não. O ser humano nunca encontrará a razão do mal. Liguei para Benites pela manhã, acordando-o. Combinei encontrá-lo no hotel Granados para um café da manhã. Ele pagou o café e me levou de volta a San Bernardino. Durante a viagem me perguntou se eu gostaria de adiar a missão na Bolívia. Apesar do braço quebrado, disse que não desistiria. Aquilo era só um contratempo. O coronel indagou sobre a colisão. Respondi, friamente: - Foi mais um dos acidentes da vida. E ela parece ser cheia deles, sem motivo algum.
Eu perguntei: - O que mais você fez a ela, além de prendê-la? Conte-me dos estupros.
O velho calou, afastando o rosto da luz, protegendo-o na escuridão do quarto. Eu imaginava que o cárcere não era a única pena que Fritz empunha a sua filha, porém seu silêncio confirmava meus piores temores. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Insisti: - Confesse, Fritz. Eu sei o que você fez com Ana todos esses anos.
O velho respondeu secamente: - Não sabe de nada e não entende nada. Só eu e Ana sabemos o que aconteceu nos anos em que ela ficou comigo, em que eu cuidei dela. Acredite no que quiser, seu doente. Me mate se quiser, porém essa é a verdade.
As palavras de Fritz me fizeram entender. Jamais confessaria, mesmo que eu o torturasse. Ele preferia morrer, antes de revelar a sua verdadeira face. Antes de tudo era um narcisista, pensava na sua imagem. O velho podia viver com o cárcere, mas não com o incesto. Ele não confessaria, porém Ana ainda poderia revelar o final da história. Mas não esta noite.
Vesti minhas roupas e sai do hospital. Deixei o velho vivo, sozinho com seus arrependimentos. Rondei o resto da noite por Assunção, tentando entender. Mas será que alguém como Fritz poderia ser compreendido? Infelizmente, não. O ser humano nunca encontrará a razão do mal. Liguei para Benites pela manhã, acordando-o. Combinei encontrá-lo no hotel Granados para um café da manhã. Ele pagou o café e me levou de volta a San Bernardino. Durante a viagem me perguntou se eu gostaria de adiar a missão na Bolívia. Apesar do braço quebrado, disse que não desistiria. Aquilo era só um contratempo. O coronel indagou sobre a colisão. Respondi, friamente: - Foi mais um dos acidentes da vida. E ela parece ser cheia deles, sem motivo algum.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
POBRE GAROTA

Enquanto segurava o travesseiro contra o rosto do velho pensei: “é fácil matar”. O ato em si não é complicado, o mais difícil é admitir a insensatez e se deixar levar pelas emoções, abraçando um caminho sem volta. As circunstâncias às vezes nos impelem, nos empurram nos braços do inevitável. O tiro na cabeça do assassino de Júlia foi uma dessas circunstâncias especiais. Mas esse caso tem a ver com justiça, não vingança. E por justiça eu também segurava o travesseiro no rosto de Fritz. Eu soltei o travesseiro, deixando o velho respirar novamente. Eu queria respostas, por isso disse-lhe: - Eu te deixo viver se me contar o que aconteceu com Ana. Diga-me a verdade, pois eu saberei se mentir. Eu já sei de tudo.
Ameacei sufocá-lo novamente. O velho entendeu que eu iria torturá-lo até ele confessar. “Proteção” foi a primeira palavra que pronunciou. Começou a falar baixinho, justificando o injustificável. O mundo distorcido de Fritz emergia, alterando a verdade, a vida em família e o amor. Ele começou dizendo que Ana se revoltou com a morte da mãe e que quis estudar no exterior. Como pai, quis proteger a garotinha que não conhecia nada além de San Bernardino e Assunção. Ela era frágil demais, não suportaria as decepções da vida e das pessoas. Por isso, ele achou melhor trancar a garota em casa. Fritz dispensou a empregada e passou semanas confinado com a filha dentro de casa. Ele argumentou: - Eu fiquei o tempo todo ao seu lado, explicando porque a mantinha presa. Ela se tornou tímida, pois entendeu os perigos do mundo. No final, Ana entendeu o que fiz por ela.
Eu lhe disse: - Você a forçou a acreditar. Mas isso não quer dizer que algum dia ela acreditou em suas mentiras. Ana fingiu para te enganar, para que não a punisse mais. Não argumente, só confesse. Onde você a mantinha?
Fritz respondeu friamente: - Eu a prendia no quarto. Tapei as janelas, coloquei um trinco em sua porta e tranquei. Abria a porta só para alimentá-la e trocar suas roupas.
O velho finalmente dizia a verdade. Temi pelo que contaria.
terça-feira, 30 de junho de 2009
OS MALES DO MUNDO
O velho estava acuado, sem forças para lutar. Nem ao menos tinha força para gritar e pedir ajuda. Foi tão debilitado pela vida, e pelo acidente recente, que não reagia. Eu poderia matá-lo com facilidade, mas ele ainda não deveria morrer. Eu não tinha provas, nem confissões. Só tinha minha antipatia pelo homem e suspeitas. Pressionei o velho: - Confesse, morra com a consciência tranqüila. O que você fez de sua vida?
O homem ficou confuso, balbuciando algumas palavras sem nexo. Eu coloquei minha mão direita no seu peito, próxima ao pescoço. – Você está velho e doente, eles acreditarão que morreu durante o sono. Confesse e se salve. Sua vida, pela verdade. Por que sua filha tem tanto medo?
O velho esbravejou: - Eu nunca a machuquei, só a protegi. Sempre a guardei de todos os males do mundo.
Ele continuava mentindo e eu, impaciente. Peguei o travesseiro e deitei contra seu rosto.
O homem ficou confuso, balbuciando algumas palavras sem nexo. Eu coloquei minha mão direita no seu peito, próxima ao pescoço. – Você está velho e doente, eles acreditarão que morreu durante o sono. Confesse e se salve. Sua vida, pela verdade. Por que sua filha tem tanto medo?
O velho esbravejou: - Eu nunca a machuquei, só a protegi. Sempre a guardei de todos os males do mundo.
Ele continuava mentindo e eu, impaciente. Peguei o travesseiro e deitei contra seu rosto.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
OBSERVAÇÃO
Cheguei à estrada depois de me arrastar para fora do charque, imundo e furioso. Meu braço já devia estar infectado com alguma doença tropical e eu estava ali, perdido no meio do nada. Um caminhão surgiu no horizonte, me viu e parou para ajudar. O caminhoneiro ajudou Ana a retirar o seu pai da água fétida e os dois carregaram o velho até caminhão. Como ela ainda tinha forças, eu não sei.
Depois de quase uma hora de viagem até o hospital, fomos atendidos na unidade de emergência em Assunção. Engessaram meu braço e me colocaram em observação por 24 horas. O velho não havia sofrido nada, só tomou alguns antibióticos por prevenção. Ana que no começo se mostrou tão calma, ficou tão nervosa com a atenção dos médicos e policiais, que quase teve um surto. Ela primeiro emudeceu e depois chorou copiosamente. Os médicos tentaram acalmá-la, mas acabaram tendo que lhe dar uma dose generosa de tranqüilizantes.
Eu e o velho fomos colocados no mesmo quarto, em observação.
Depois de quase uma hora de viagem até o hospital, fomos atendidos na unidade de emergência em Assunção. Engessaram meu braço e me colocaram em observação por 24 horas. O velho não havia sofrido nada, só tomou alguns antibióticos por prevenção. Ana que no começo se mostrou tão calma, ficou tão nervosa com a atenção dos médicos e policiais, que quase teve um surto. Ela primeiro emudeceu e depois chorou copiosamente. Os médicos tentaram acalmá-la, mas acabaram tendo que lhe dar uma dose generosa de tranqüilizantes.
Eu e o velho fomos colocados no mesmo quarto, em observação.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
O PÂNTANO

O carro seguia constante pela estrada. Ana não descuidava da direção, apesar do nervosismo. Consultava os retrovisores e a velocidade maquinalmente, porém minhas reclamações abalavam seus pensamentos. O velho gritou, pedindo que respeitasse sua filha. A mulher, ouvindo o tom áspero do pai, se contraiu com medo, mais aflita do que com os meus gritos raivosos. Eu a pressionei: - Você devia dirigir olhando para frente e não para o banco de trás.
Ela se virou para mim. Seus olhos perderam vagarosamente o torpor, deixando-os renascer. Ana tentou dizer alguma coisa, mas sua fala não veio, pois acabou se assustando com um caminhão que vinha no sentido contrário. O carro saiu da estrada, destruiu uma cerca e acabou no charco, verde e lamacento, que cercava a estrada. O impacto com a água me atordoou, mas felizmente o cinto de segurança me protegeu. Tirei-o e procurei o corpo de Ana ao meu lado. Ela tentava se soltar ao mesmo tempo em que buscava salvar o pai. Na sua confusão, entre a própria vida e a do velho, ajudei-a se livrar do cinto e a empurrei para fora do carro, para salva-la. Ela gritava pelo pai enquanto saíamos pela porta, mas eu lhe disse: - Nós não vamos conseguir alcançá-lo, o carro está afundando rápido. Precisamos sair daqui.
Meu braço esquerdo doía e nossos pés mal tocavam o fundo lamacento do charque. Sem poder usá-los, lutei mesmo assim pela minha vida e a de Ana. Ela conseguiu desvencilhar-se do meu braço e voltou ao carro, tentando salvar o pai. Para nossa surpresa, ele já havia conseguido se livrar do cinto e com a ajuda da água, vinha boiando em direção a porta. Ana o ajudou a sair, enquanto eu tentava sair daquele pântano.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
BATIDA
Fui atropelado esta manhã pelo carro de Ana. Eu voltava de uma das minhas caminhadas, quando ela, trazendo seu pai de um exame médico, bateu em mim. Cai, estatelado no chão, perto da entrada de sua casa. Ana saiu do carro e veio ver se eu estava bem. Foi a primeira vez que ouvi sua voz, e ela era doce e tímida. Ficou preocupada comigo e se ofereceu para me levar até a cidade. Quando cai, senti uma dor no braço esquerdo, onde havia se apoiado todo o meu corpo. Ela me tocou e constatou o pior, eu precisava realmente ir a um hospital. Achei melhor aceitar o seu socorro para ir logo. Entrei no carro, do lado do carona. O pai de Ana estava sentado no banco de trás, bem atrás de mim. Ela apresentou o velho. Eu me virei para cumprimentá-lo, e ele acenou com cabeça: - Mucho gusto!
Ana não se apresentou, por isso tive de perguntar seu nome. Ela respondeu, envergonhada. Depois das apresentações, os dois, nem pai e filha, falaram mais nada. Eles não me fizeram uma pergunta, nem trocaram nenhuma palavra. Ana dirigia concentrada e eu não conseguia ver o velho. Eu decidi arriscar e puxei conversa. Comecei a perguntar sobre a casa e o carro, mas ela respondia monossilabicamente, sem dar espaços para conversas. Como ela não respondia, fui mais agressivo. Segurei meu braço quebrado e perguntei se não tinha me visto na calçada caminhando. Ana ficou nervosa, pediu desculpas. O pai dela se inquietou no banco de trás. Parece que saíram do coma.
Ana não se apresentou, por isso tive de perguntar seu nome. Ela respondeu, envergonhada. Depois das apresentações, os dois, nem pai e filha, falaram mais nada. Eles não me fizeram uma pergunta, nem trocaram nenhuma palavra. Ana dirigia concentrada e eu não conseguia ver o velho. Eu decidi arriscar e puxei conversa. Comecei a perguntar sobre a casa e o carro, mas ela respondia monossilabicamente, sem dar espaços para conversas. Como ela não respondia, fui mais agressivo. Segurei meu braço quebrado e perguntei se não tinha me visto na calçada caminhando. Ana ficou nervosa, pediu desculpas. O pai dela se inquietou no banco de trás. Parece que saíram do coma.
terça-feira, 23 de junho de 2009
NOITES PAULISTANAS
Apesar de eu reclamar das noites, tenho dormido bem, um verdadeiro sono dos justos. Júlia foi embora quando apertei o gatilho em São Paulo. Ela não povoa mais meus sonhos, só minhas lembranças. Senti que a justiça foi feita e seu espírito podia descansar em paz. Eu fui o único que me levantei por Júlia, ainda que não tenha sido em vida. Mas lutei por ela, provei que não era descartável. Minha consciência está tranqüila, e não devo mais nada à garota. Depois que fiz justiça com o monstro que a assassinou, e perdi minha liberdade por isso, vou fazer o que quiser com o resto da minha vida. E minha vida ia para Bolívia, lutar.
Eu espero o encontro com o agente boliviano, membro da resistência. Decidi aumentar meus exercícios físicos e diminuir o número de cigarros. O momento é de grande concentração, não posso me permitir errar.
Durante as minhas caminhadas ainda observo a casa de Ana. Nenhuma novidade, apesar de eu ter aumentado a minha atenção. Perguntei sobre a família dela para algumas pessoas, muito discretamente, mas ninguém sabia de nada. A clausura de Ana era total, um verdadeiro cárcere monástico.
Eu espero o encontro com o agente boliviano, membro da resistência. Decidi aumentar meus exercícios físicos e diminuir o número de cigarros. O momento é de grande concentração, não posso me permitir errar.
Durante as minhas caminhadas ainda observo a casa de Ana. Nenhuma novidade, apesar de eu ter aumentado a minha atenção. Perguntei sobre a família dela para algumas pessoas, muito discretamente, mas ninguém sabia de nada. A clausura de Ana era total, um verdadeiro cárcere monástico.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
NOVIDADES

Boas notícias! Benites me ligou esta manhã confirmando o interesse dos bolivianos pelos meus serviços. O coronel se gabou, dizendo que havia falado muito bem de mim. Eu agradeci e perguntei os pormenores.
Um encontro seria necessário para fechar o acordo. Benites e os bolivianos acharam melhor acontecer no Paraguai, em San Bernardino. Eles viriam até mim e acertaríamos a história toda. Acho que será na próxima semana, mas eles ainda avisarão. Paciência é necessária agora, para manter a cabeça no lugar. A revolução se aproxima, eu posso sentir. As massas ao fundo, gritam e pedem as cabeças dos vermelhos. Uma chance de felicidade nasce em mim.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
ESPERANDO
Os finais de semana em San Bernardino são mais tristes nessa época do ano. O hotel fica quase vazio, com apenas três funcionários trabalhando. Às vezes surgem outros hóspedes, mas parecem fazer à mesma coisa, se esconder. Não querem saber de conversa, se trancam nos quartos e só saem para caminhar perto do lago. Eu procuro não enlouquecer, lembrando sempre das promessas da Bolívia. Em breve, eu sairei desse inferno pacífico, rumo a um caldeirão de problemas. A idéia me conforta e dá força para agüentar meus dias finais em San Bernardino.
Ainda rondo a casa de Ana. Desta vez vi o carro da família, um Ford da década de setenta. Não observei muito mais, para não levantar suspeitas. O povo das cidades pequenas fala demais e estão sempre observando. A última coisa que quero é me tornar alvo de suspeitas da população local. Apesar disso, Ana e seus mistérios não saem da minha cabeça. Conversando com os moradores não consegui descobrir muito mais, apenas que sua mãe morreu ainda na década de 70. Depois disso, ela foi para a faculdade e passou longos anos no estrangeiro. Quem me contou a história de Ana foi a minha principal fonte na cidade, o gerente do hotel. Ele era o único que sabia os detalhes mais íntimos dela, mas ainda sim,eram poucos.
Eu, com essa minha mania de tentar entender os outros, passava horas tentando decifrar a vida de Ana. Seria o amor tão grande assim entre os dois, para fazer uma filha desistir da vida no estrangeiro para cuidar do pai? Ou seria outra coisa que a fazia esquecer que era uma mulher bonita e desejável, mofando dentro de casa com um pai semimorto?
Ainda rondo a casa de Ana. Desta vez vi o carro da família, um Ford da década de setenta. Não observei muito mais, para não levantar suspeitas. O povo das cidades pequenas fala demais e estão sempre observando. A última coisa que quero é me tornar alvo de suspeitas da população local. Apesar disso, Ana e seus mistérios não saem da minha cabeça. Conversando com os moradores não consegui descobrir muito mais, apenas que sua mãe morreu ainda na década de 70. Depois disso, ela foi para a faculdade e passou longos anos no estrangeiro. Quem me contou a história de Ana foi a minha principal fonte na cidade, o gerente do hotel. Ele era o único que sabia os detalhes mais íntimos dela, mas ainda sim,eram poucos.
Eu, com essa minha mania de tentar entender os outros, passava horas tentando decifrar a vida de Ana. Seria o amor tão grande assim entre os dois, para fazer uma filha desistir da vida no estrangeiro para cuidar do pai? Ou seria outra coisa que a fazia esquecer que era uma mulher bonita e desejável, mofando dentro de casa com um pai semimorto?
quinta-feira, 18 de junho de 2009
OLHOS SINCEROS
Animado com a possibilidade de ir à Bolívia, ajudar na “liberação” de Santa Cruz, passei a ler tudo sobre o país. Comprei jornais, usei a vagarosa internet do hotel e até consegui alguns livros sobre a guerra entre o Paraguai e Bolívia. A situação no país piora a cada semana. Evo Morales já descobriu um plano para assassiná-lo, comandado pelos políticos do departamento de Santa Cruz. O plano usava assassinos estrangeiros, o que gerou uma trapalhada internacional. O governo boliviano mandou tropas para o estado, supostamente para reforçar a segurança na fronteira com o Brasil, depois que uma vala com seis brasileiros mortos foi achada. A Bolívia está à beira do abismo, com o separatismo e as potências locais empurrando-a cada vez mais para a beirada.
Não parava de chover em San Bernardino e o céu permanecia sempre cinzento. Apesar de o inverno no Paraguai estar no ápice, à temperatura não abaixou muito. O mormaço tropical não deixava esfriar os calores da terra. Por isso, adotei um guarda-chuva e uma jaqueta leve em minhas caminhadas. Passo na frente da casa de Ana todos os dias. Eles moram não muito longe do hotel e, apesar de eu passar por lá quase todas as manhãs e em algumas tardes esporádicas, nunca consegui vê-los. Nem o pai nem a filha. Os locais disseram que eram sós, vivendo em uma casa simples sem nenhum empregado. Em uma vendinha próxima, a dona do lugar me ofereceu docinhos locais e um pouco mais da história de Ana. Segundo a velha índia, ela nunca saia de casa sem o pai e comprava na venda ocasionalmente. Tinha um carro velho, que usava para ir à cidade de vez em quando. Falava mal o espanhol, com um forte sotaque alemão.
Comprei um doce de leite e continuei minha caminhada sem rumo. Pensava em Ana, é claro. Ela tinha uma mãe morta e um pai quase lá. Sempre viveu por aqui, mas mesmo assim, nem consegue falar o idioma local. Os olhos de Ana não me enganaram naquele dia à beira do lago. Eles prometiam mistério e foram sinceros.
Não parava de chover em San Bernardino e o céu permanecia sempre cinzento. Apesar de o inverno no Paraguai estar no ápice, à temperatura não abaixou muito. O mormaço tropical não deixava esfriar os calores da terra. Por isso, adotei um guarda-chuva e uma jaqueta leve em minhas caminhadas. Passo na frente da casa de Ana todos os dias. Eles moram não muito longe do hotel e, apesar de eu passar por lá quase todas as manhãs e em algumas tardes esporádicas, nunca consegui vê-los. Nem o pai nem a filha. Os locais disseram que eram sós, vivendo em uma casa simples sem nenhum empregado. Em uma vendinha próxima, a dona do lugar me ofereceu docinhos locais e um pouco mais da história de Ana. Segundo a velha índia, ela nunca saia de casa sem o pai e comprava na venda ocasionalmente. Tinha um carro velho, que usava para ir à cidade de vez em quando. Falava mal o espanhol, com um forte sotaque alemão.
Comprei um doce de leite e continuei minha caminhada sem rumo. Pensava em Ana, é claro. Ela tinha uma mãe morta e um pai quase lá. Sempre viveu por aqui, mas mesmo assim, nem consegue falar o idioma local. Os olhos de Ana não me enganaram naquele dia à beira do lago. Eles prometiam mistério e foram sinceros.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
PERGUNTAS E MENTIRAS
Resolvi incluir a casa de Ana no percurso das minhas caminhadas diárias. Por mais que eu tentasse não me envolver, minha consciência não me deixava em paz. E se seu pai fosse realmente um criminoso de guerra? Não foi difícil descobrir o endereço da família com o gerente do hotel, que também me contou o nome do pai: chamava-se Fritz. Ele guardava segredos, sua velhice decrépita era prova. Ninguém tão velho poderia ser inocente. Ainda mais ele, que mal podia respirar. Não sou religioso, mas seu estado devia ser uma punição divina pelos crimes que não pagou na terra.
Fritz poderia ter falsificado seu nome e inventado uma nova identidade. Fugir de sua vida antiga na Alemanha teria sido a parte fácil do acobertamento de seus crimes, o difícil seria escondê-los pelo resto de sua vida. Eu mesmo usava um nome falso no hotel. Havia me registrado com nome de Alberto Aparecido do Nascimento e pago em dinheiro, para não deixar rastros. Inventei também uma história de cobertura, dizendo aos funcionários do hotel que era apenas um fazendeiro viúvo de Corumbá que estava passando uma temporada em San Bernardino, onde eu e minha falecida esposa havíamos tido nossa noite de núpcias. Contava aos funcionários sobre meu casamento feliz e de meus filhos ingratos, que estavam sempre tentando me roubar. Os empregados sentiam pena de minha história e não desconfiavam da mentira. Simpáticos, criticavam os filhos da nova geração, que não respeitam mais os pais. – Maldita juventude, repetiam eles.
No entanto, sabia que essa história não se sustentaria por muito tempo. Logo teria que me mudar também, pois as pessoas desconfiam, mesmo quando convencidas. Fritz deve conhecer essa verdade, por isso vive recluso. A história permanece nebulosa, mas só uma pergunta realmente me interessa: Ana é uma filha caridosa ou uma prisioneira?
Fritz poderia ter falsificado seu nome e inventado uma nova identidade. Fugir de sua vida antiga na Alemanha teria sido a parte fácil do acobertamento de seus crimes, o difícil seria escondê-los pelo resto de sua vida. Eu mesmo usava um nome falso no hotel. Havia me registrado com nome de Alberto Aparecido do Nascimento e pago em dinheiro, para não deixar rastros. Inventei também uma história de cobertura, dizendo aos funcionários do hotel que era apenas um fazendeiro viúvo de Corumbá que estava passando uma temporada em San Bernardino, onde eu e minha falecida esposa havíamos tido nossa noite de núpcias. Contava aos funcionários sobre meu casamento feliz e de meus filhos ingratos, que estavam sempre tentando me roubar. Os empregados sentiam pena de minha história e não desconfiavam da mentira. Simpáticos, criticavam os filhos da nova geração, que não respeitam mais os pais. – Maldita juventude, repetiam eles.
No entanto, sabia que essa história não se sustentaria por muito tempo. Logo teria que me mudar também, pois as pessoas desconfiam, mesmo quando convencidas. Fritz deve conhecer essa verdade, por isso vive recluso. A história permanece nebulosa, mas só uma pergunta realmente me interessa: Ana é uma filha caridosa ou uma prisioneira?
terça-feira, 16 de junho de 2009
UM OLHAR ENIGMÁTICO
As conexões de internet no Paraguai são muito ruins. Consultar um simples e-mail é um ato de paciência e controle do temperamento. A vontade é de socar o único computador do hotel que não oferece nenhuma velocidade. Apesar disso, o tédio e a curiosidade me fizeram pesquisar um pouco mais da história de San Bernardino. Não havia muito, a não ser um link sobre criminosos de guerra nazistas que tinham fugido para a América do Sul. Fiquei surpreso ao saber que até o carrasco Mengele tinha passado algum tempo na cidade. Desliguei o computador, mas fiquei com a história na cabeça.
Não demorou muito para eu lembrar da mulher que passeava com seu pai à beira do lago. Divaguei e imaginei o velho fugindo do julgamento de crimes de guerra, escapando de Berlim para a pacata San Bernardino. O pai de Ana tinha uma expressão de superioridade em seu rosto, mas não era nojo, era reprovação à cultura local. Uma cultura que eles não achavam adequada aos seus modos civilizados, nórdicos, puros, ou qualquer outra bobeira racial.
Ana ainda me intrigava, seu olhar era poderoso demais para ser esquecido. Ele penetrou em mim e ficou guardado. Antes de sair desse lugar, gostaria de conversar com ela, ouvir sua voz. Será que seria tão poderosa quanto seu olhar?
Não demorou muito para eu lembrar da mulher que passeava com seu pai à beira do lago. Divaguei e imaginei o velho fugindo do julgamento de crimes de guerra, escapando de Berlim para a pacata San Bernardino. O pai de Ana tinha uma expressão de superioridade em seu rosto, mas não era nojo, era reprovação à cultura local. Uma cultura que eles não achavam adequada aos seus modos civilizados, nórdicos, puros, ou qualquer outra bobeira racial.
Ana ainda me intrigava, seu olhar era poderoso demais para ser esquecido. Ele penetrou em mim e ficou guardado. Antes de sair desse lugar, gostaria de conversar com ela, ouvir sua voz. Será que seria tão poderosa quanto seu olhar?
domingo, 14 de junho de 2009
PROCURANDO POR UMA NOVA VIDA
Os dias parecem mais longos em San Bernardino. Faço exercícios, leio e dou longas caminhadas em volta do lago, porém estou sempre entediado e com tempo sobrando. Tento matar as horas de todas as formas, mas elas resistem. Procuro arranjar assuntos com os funcionários do hotel e até com estranhos na rua, só para não enlouquecer, no entanto, não se pode conversar para sempre sobre as futilidades do cotidiano.
Estive pensando em me mudar depois de uma conversa que tive com Benites. Eu liguei só para bater papo e esquecer do marasmo, mas ele acabou revelando um telefonema que poderia mudar minha vida. O coronel recebeu a ligação de um boliviano que representava o departamento de Santa Cruz, uma região rica e separatista da Bolívia. Ele disse que o homem lhe ofereceu um trabalho para treinar a militância oposicionista ao presidente Evo Morales. Os governantes do departamento pensavam alto: milícias armadas e até o assassinato do chefe de estado.
Benites recusou a oferta, por ser muito perigosa, mas eu me ofereci para o emprego. Ele achou graça, mas quando percebeu que eu falava sério, tentou me dissuadir. Avisou que era arriscado demais e que os golpistas estavam destinados ao fracasso. Eu insisti. O coronel me aconselhou: - Vargas, você deve ter enlouquecido depois que ficou velho. Justo você, que sempre soube apostar nos vencedores. Eu te digo a verdade, esses golpistas vão se dar mal e se te pegaram junto com eles... Aproveite o resto de sua vida, fique em San Bernardino.
Não me importei com seus avisos e pedi que ele me arrumasse o emprego. Benites, contrariado, concordou em me ajudar. Prometeu ligar quando tivesse novidades.
Estive pensando em me mudar depois de uma conversa que tive com Benites. Eu liguei só para bater papo e esquecer do marasmo, mas ele acabou revelando um telefonema que poderia mudar minha vida. O coronel recebeu a ligação de um boliviano que representava o departamento de Santa Cruz, uma região rica e separatista da Bolívia. Ele disse que o homem lhe ofereceu um trabalho para treinar a militância oposicionista ao presidente Evo Morales. Os governantes do departamento pensavam alto: milícias armadas e até o assassinato do chefe de estado.
Benites recusou a oferta, por ser muito perigosa, mas eu me ofereci para o emprego. Ele achou graça, mas quando percebeu que eu falava sério, tentou me dissuadir. Avisou que era arriscado demais e que os golpistas estavam destinados ao fracasso. Eu insisti. O coronel me aconselhou: - Vargas, você deve ter enlouquecido depois que ficou velho. Justo você, que sempre soube apostar nos vencedores. Eu te digo a verdade, esses golpistas vão se dar mal e se te pegaram junto com eles... Aproveite o resto de sua vida, fique em San Bernardino.
Não me importei com seus avisos e pedi que ele me arrumasse o emprego. Benites, contrariado, concordou em me ajudar. Prometeu ligar quando tivesse novidades.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
O TRISTE FIM
Juntei todas as informações do caso de Júlia e coloquei em uma pasta. Deixei-a organizada e bem apresentável para que impressionasse a vista. Acrescentei uns recortes de jornais aos relatórios dos casos oficiais. Estava tudo pronto, mas em minha consciência só restava uma dúvida: seria mesmo o assassino de Júlia ou só outro predador? Infelizmente eu nunca conseguiria achar provas de que ele realmente cometeu o crime, para provar materialmente o caso. Eu estava convencido de que só uma confissão confirmaria a história toda. Como na época do serviço, não poderia me ater só às provas, mas sim aos fatos para produzir um significado.Nesta quinta-feira, eu, com todos os dados do suspeito, fui atrás dele. Seu nome é Pedro e trabalha em uma agência de publicidade da Vila Madalena. Peguei a mesma carteira falsa de policial que havia apresentado a colega de Júlia do supermercado e mais uma vez me disfarcei de investigador da polícia civil. Estava de terno e gravata, sapatos encerrados e revólver na cintura. Chamei Valdir e pedi que me levasse ao emprego do suspeito. Já tinha levantado algumas coisas sobre sua vida, como endereços e telefones, mas teria que blefar em algumas partes. Fui confiante da minha história, pois só isso o faria confessar e finalmente dar paz a Júlia. A República estava condenada, ma pelo menos eu poderia compensar por uma injustiça cometida.
Cheguei ao emprego de Pedro no final da tarde. Fui a secretária e pedi para chamá-lo, me identificando como policial. Passados uns cinco minutos apareceu Pedro, bem vestido e de cabelo arrumado. Cumprimentou-me e já quis logo ir sabendo do que se tratava. Eu estava usando óculos escuros e suavizei minha voz, para ele não se lembrar de mim. Pedi para irmos a um café que havia na frente da agência, para conversarmos em particular. Ele concordou. Atravessamos a rua, pedimos dois cafés e nos sentamos em uma mesa de canto, perto de uma janela. Eu disse que estava investigando a morte de prostitutas na região do centro. Mostrei a ele o dossiê que tinha, inclusive com a sua ficha policial e com as fotos da sua antiga prisão. Antes de ele falar algo eu lhe disse que tinha muitas testemunhas, garotas de programa que haviam sido agredidas por ele. Ele negou prontamente, disse que tinha não tinha nada a ver com os assassinatos. Eu perguntei sobre as prostitutas e ele confirmou que freqüentava as mulheres da região, mas negou as agressões e as chamou de “ladras”.
Blefei mas um pouco, falei do corpo que apareceu em 2007 e que nele havia provas materiais do assassino. Fui vago sobre o assunto, mas o intimidei. Perguntei se ele tinha álibis e ele disse que queria consultar um advogado. Eu comentei. - Você está bem encrencado e isso vai acabar fazendo a maior bagunça. Eu vou mandar uma intimação para a sua casa e lhe indicar para o delegado como principal suspeito. Quem sabe não vasa para a imprensa...
Ele perguntou. – Porque tantas ameaças? O que você quer?
Respondi friamente. - Dinheiro.
O homem ficou pasmo com a minha resposta rápida. Pensou por alguns instantes e perguntou quanto eu queria. Eu sorri e disse. – O pessoal da delegacia quer R$ 50 mil. Sabe, para abafar o caso e levar a investigação em outra direção. Uma que não de em nada.
Pedro parecia se tranqüilizar. Mas eu continuei. – Mas tem mais uma coisa que você tem que fazer. Para te ajudar, eu preciso saber quantas garotas você matou?
Ele ficou sério e disse que não havia matado ninguém, que tentaria arranjar o dinheiro, mas só para não ser prejudicado. Eu dei risada e perguntei. – Se você é inocente, não pagaria. Vamos me diz, quantas foram? Duas ou três prostitutas?
Manteve a postura e repetiu a mesma história. Olhou para os lados e ficou procurando por mais observadores. Acho que ele ficou desconfiado que talvez eu estivesse usando escuta e tudo poderia ser uma cilada da polícia.
Mandei-o pagar a conta e pegar seu carro. O primeiro pagamento deveria ser feito naquele momento. Pedi pelo menos R$ 5 mil. Ele tentou negociar, mas eu fui irredutível. Disse que pegasse o carro logo, para podermos arranjar logo o dinheiro, pois eu tinha policiais trabalhando comigo e que eles queriam o pagamento. Pedro entrou na agência e depois de uns quinze minutos saiu e encostou o carro. Eu entrei e já perguntei onde ele arranjaria o dinheiro. Ele pensou alguns segundos e disse que passaria primeiro no banco e depois pegaria o resto em casa. Comecei a conversar com ele. – Não vamos nos demorar muito. Quero resolver esse assunto rápido. Daqui um tempo vou te ligar para você fazer outras entregas de dinheiro. Depois de hoje, fique preparado, porque vamos querer esses R$ 50 mil bem depressa.
Ele não respondeu e eu resolvi perguntar novamente sobre as mortes. – Pedro, eu ainda preciso saber sobre as mortes. Quantas você matou?
Pedro voltou com a mesma história e disse não tinha feito nada. Eu falei. – Você não vai ficar insultando a minha inteligência. Eu sei que foi você. Quem sabe eu não tiro outro proveito de você. Sabe, talvez eu consiga uma promoção pegando o “maníaco do centro”. Posso até chegar a delegado desvendando essa investigação. Este tipo de mídia ajuda na carreira de um policial.
O homem não respondeu e isso me irritou. Eu gritei. – Você não vai contar? Tudo bem, pare o carro. Eu te vejo na sala de interrogatório da DP.
Ele não parou o carro. Seguiu dirigindo por alguns segundo até dizer que queria cooperar. Contou-me friamente. – Matei uma, tá bom? Matei uma puta de rua lá do centro. Juro. Foi um acidente e eu nem me lembro onde joguei o corpo. Era só uma puta!
Sua frieza era espantosa. Para ele, a mulher assassinada não era nada. Eu retruquei. – Mentira, você continua mentindo para mim. Eu sei que você matou outras mulheres e escondeu o corpo. Me fala sobre as outras.
Pedro voltou a falar que só havia matado uma. A essa altura ele estava muito nervoso e parecia um animal acuado e sem escapatória. Estava ficando desesperado, sem saída, e isso era muito perigoso para mim. Pedro era um doente e eu sabia do que ele era capaz. O carro ficou mais rápido e ele não parecia mais comandá-lo. Coloquei minha mão direita próxima da arma. Quando a senti, voltei a perguntar. – Quero saber das outras. Me fala sobre a garota do prédio da rua General Jardim que você invadiu. Onde desovou o corpo da garota?
Ele não respondeu e acelerou, cada vez mais apreensivo. Eu estava cansando daquele jogo e de suas mentiras. Perguntei mais uma vez. - Eu quero saber onde você escondeu o corpo dela. Anda, me fala logo.
Pedro se virou para mim, com um olhar frio e sem emoção e me disse tudo que queria saber, só com essa expressão. Ele nem se lembrava, estava matando há tanto tempo que provavelmente nem se lembrava de Júlia. Apesar de todo o trabalho, ela foi só mais uma no caminho dele.
O homem vinha em alta velocidade, em uma rua calma da Vila Madalena. Um cachorro atravessou o caminho e ele tentou desviar, mas acabou subindo com o automóvel na calçada e dando de cara no muro. O movimento de parada bruta do carro me fez segurar o revólver com força e depois de alguns instantes eu já o tinha sacado, estimulado pela adrenalina. Mantive a mira baixa, apoiada na minha barriga. Eu olhei dentro de seus olhos e pensei em Júlia. Quais foram os terrores que ela passou com esse homem, e o que ele teria feito com seu corpo? Em meus ouvidos ela pedia vingança. Era ele o homem certo, seu assassino. Eu perguntei mais uma vez. – Onde está a garota da General Jardim?
Ele ficou calado, de certo estranhando a minha insistência em relação a sua vítima. Pedro jamais confessaria, iria mentir por toda a vida, sabendo que ninguém poderia provar sua culpa pelo assassinato. Eu coloquei a arma em sua cabeça e apertei o gatilho. Ele não reagiu e tombou para frente, ficando apoiado apenas pelo cinto de segurança.
A bagunça estava feita, mas eu não senti remorso. Sai do carro apressado tentando não mostrar meu rosto. A rua estava calma e ninguém me viu, mas sabia que não tinha muito tempo. Peguei um táxi na esquina e fui para o meu apartamento. Era só uma questão de tempo até a polícia vir atrás de mim. Eles vão seguir as pistas, conversar com as pessoas e descobrir toda a história. Pedro importava para a sociedade e por isso, investigariam sua morte. Eu teria que sumir para não acabar meus dias mofando em um presídio.
Cheguei a casa e fiz uma mala, só com as coisas mais importantes. Agora, escrevo no blog para finalizar a história e para as pessoas saberem o que realmente aconteceu. Eu vou sumir no mundo e mudar completamente, viver outra vida. E eles nunca me acharão.
terça-feira, 21 de abril de 2009
FICHA CORRIDA
Já comecei a trabalhar na identificação do suspeito, o homem de quem peguei a identidade na semana passada. Prometi ao delegado, que já tinha me dado pastas com arquivos dos crimes de Júlia e da outra mulher, que não o incomodaria mais. Porém, se eu estivesse certo o seqüestrador não seria réu primário, sua ficha já devia estar manchada com alguma agressão a mulheres. Liguei para o delegado e o intimidei sem nenhuma vergonha. Ele pediu 48 horas. Também comecei a mostrar a foto da identidade do homem para as garotas de Janice. Algumas o reconheceram e disserem que ele era o homem que as visitava de vez em quando.Hoje, o delegado me mandou a ficha corrida do suspeito por um motoboy. Quando abri estava lá a mancha em seu passado, cometido na juventude, quando ainda não era um predador experiente. Era só um moleque e não foi condenado pelo espancamento de uma prostituta, junto com alguns amigos. Ele foi fichado e pela sua foto, segurando uma plaquinha com números, pude perceber melhor seus traços, mesmo que o retrato fosse antigo. Tinha traços comuns e nada em especifico nele chamava atenção. A única coisa que me impressionou foi sua frieza. Quando o intimidei, ele não se desesperou ou alterou a voz. Estava seguro de si e tranqüilo. Quando lhe perguntei sobre as prostitutas ele falou sem inibições. O homem gostava realmente daquilo. Era o suspeito perfeito e teria tempo, e dinheiro, para planejar um ataque a Júlia. Quem iria desconfiar dele?
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