sexta-feira, 10 de abril de 2009

HOMEM PERDIDO

Marquei de pegar o carro com Renato na quinta-feira, véspera de feriado, logo ao entardecer. Combinei de encontrá-lo com o táxi na frente de sua oficina às 16h30. No horário marcado ele já estava pronto, já sem uniforme e de banho tomado. Entramos no carro de Valdir e fomos rumo a um bairro no extremo da Zona Norte de São Paulo. Quando chegamos ao local, comentei no táxi. - Já pegamos esse trânsito para ir, imagina o da volta.

Estávamos na casa do meu amigo as 17h30. Havia ligada para ele combinando os detalhes sobre o carro e o que deveria dizer, apesar de achar que Renato não se importaria com a história contada. Tocamos a campainha e logo meu antigo associado veio abrir o portão, com um sorriso no rosto. Fazia algum tempo que não encontrava João. Trabalhamos uns bons anos juntos. Ele era um sujeito muito competente no que fazia, trabalhando infiltrado. Se passar por dono de um carro à venda não seria difícil para ele. Logo foi mostrando o carro e dando as chaves para o mecânico. Puxou-me pelo braço e veio me perguntar o porquê da história toda. – O que você está aprontado, Vargas? Você vem aqui e pede para emprestar o carro, mas quer que eu finja que estou vendendo. O que esse mecânico fez?

Respondi calmamente. – Ainda não sei, mas espero que nada. Ele está me ajudando a confirmar uma coisa.

Abrimos o portão e Renato estacionou o carro na frente da garagem, ainda com o motor ligado. Cumprimentei João. Ele disse. – Boa Sorte.

Entrei no carro e Renato arrancou. Tinha conseguido enrolar um pouco e saímos no horário previsto, na pior hora do trânsito. Antes de chegar à esquina perguntei. – Você quer parar em algum lugar para comer? O trânsito deve estar um inferno.

Ele acenou que não. – Comi um salgadinho antes de vir, obrigado.

Eu disse. – Tudo bem. Então vamos encarar o monstro.

A marginal Tiete estava engarrafada. Renato parecia reflexivo e resolvi arriscar e tomar um gole do uísque que trazia em meu paletó. Dei um gole, mas fingindo que bebia. Limpei a boca com a manga do paletó. Dei uma limpada na garganta, simulando prazer, mas não ofereci a Renato. Já fui guardando o uísque enquanto ele me olhava surpreendido, mas não pediu um gole. Resolvi oferecer. – Desculpa, Renato. Tomei um gole aqui da minha bebidinha e nem te ofereci. Quer um pouco?

Renato parecia tentado. Resolvi apressar as coisas e tirei a bebida do paletó e a coloquei em sua mão. Comentei. – Toma um golinho, meu amigo. Porque vamos ficar parado aqui um bom tempo. Na verdade, toma um golão!

Eu ri da minha piada e ele pareceu amolecer. Deu um grande gole na mistura que havia preparado em casa. Não tinha enchido totalmente o recipiente da bebida para dar a impressão que tinha dado um gole grande do uísque. Também misturei com alguns remédios de venda controlada, que combinados deixavam a pessoa mais relaxada. Ele devolveu a bebida e quinze minutos depois, após termos andado poucos metros com o carro, ofereci outro gole. Novamente ele aceitou.

Depois do segundo gole ele começou a ficar mais solto. Seus ombros ficaram menos rijos e sua coluna começou a entortar. Seus braços se apoiaram no volante. Ele parecia meio confuso com o efeito, mas logo interferi em seus pensamentos. – Essa bebidinha bate forte, não é? Essa é danada!

Ele me olhou, processou a informação e a aceitou como verdadeira. Comecei a papear. Falei do tempo, do trânsito, da maldita cidade. Não só ele concordava com a cabeça, como até fazia suas próprias críticas. Estava ouvindo pela primeira vez sua voz e ela ficava cada vez mais confiante. E mais irada também. Critiquei o asfalto das ruas e ele usou um palavrão para ofender a mãe do prefeito, por fazer um serviço tão mal-feito. Ele ia se deixando invadir pela raiva e ia relaxando cada vez mais.
Falei mal da polícia e da podridão que era a República. Ele concordou e soltou mais palavrões. Eu comecei a contar uma história. – Sabe, a nossa polícia é uma porcaria mesmo. Você acredita que seqüestraram uma garota no prédio que eu moro. Era minha vizinha, lá na General Jardim. Os policias não fizeram nada! Nem investigaram.

Ele demorou um pouco a entender o assunto da conversa por causa da bebida batizada, mas quando ouviu as palavras certas, ficou imóvel. Ele permaneceu quieto e eu dei um pouco tempo para ele organizar suas idéias. Continuei. – O cara que fez isso saiu impune, acredita? Como é que pode? Esse mundo está perdido mesmo, não meu tempo não era assim.

Renato ficou perturbado com a conversa. Perguntou. – Que história é essa que o senhor tá contando? Como era o nome da garota?

Eu fingi ter dificuldade em lembrar, mas acabei dizendo o nome de Júlia. Disse que não a conhecia direito, mas que fiquei sabendo tudo pela síndica do prédio. Ele ficou perplexo. Eu lhe perguntei se estava bem e ele não conseguiu disfarçar a emoção. Eu lhe perguntei de novo e ele acabou cedendo. – Eu a conhecia, ela já foi minha namorada...ela...

Ele se calou e temi que não revelasse mais nada. Continuei. – Poxa, me desculpa tocar no assunto...eu não sabia. A síndica disse que vocês iam se casar.
Ele me interrompeu. – Nós não íamos nos casar nada. Ela que andou espalhando isso, mas eu tinha terminado com ela. Ela que continuava falando para os outros dessa história.

Renato parecia bravo e suas lágrimas pareciam se tornar de ódio. Eu precisa continuar pressionando. – Calma, amigo. Eu sei que você devia amar muito a sua noiva, aqui toma mais um golinho.

Ofereci a bebida, mas ele não aceitou. – Aquela perdida não era minha noiva! Eu já disse, eu terminei com ela. Ela não queira aceitar, mas eu acabei com tudo.
Eu falei, fingindo complacência – Desculpa. Eu também nunca te vi por lá, vocês não deviam ser muito próximos mesmo, não é?

Esbravejou. – Ela nunca me deixou subir, dizia que não era direito. Se fantasiava de honesta, ia à igreja e tudo. E pensar que eu apresentei ela para os meus pais.
Eu o confortei. – É, mulher só dá dor de cabeça mesmo. São todas iguais.

Ele retrucou. – Não são todas iguais não, algumas são piores. Te iludem, depois que você fica sabendo a verdade e percebe que é tudo é mentira. São fingidas. E ainda grudam, como se eu você tivesse alguma obrigação com elas. Como se eu devesse algo a ela.

Concordei. – Esse tipo de mulher eu conheço, são de matar.

Ele continuou. - São mesmo, não entendem quando se diz não. Elas querem continuar a incomodar. Ai se fazer o que, né?

Eu dei corda para seus delírios. – É. Mas como se livrar delas?
Renato ficou pensando e minha pergunta, em estado de transe. Ele limpou o nariz e ficou balançando a cabeça, em sinal negativo. – A gente espera um milagre. Acontece alguma coisa e elas somem. Deus sabe o que faz.

Tentei uma última cartada para descobrir o que Júlia havia feito de tão grave. – É, ele sempre sabe. Mas não devemos mais nos preocupar com essas coisas, elas saram. Mas, se você não se incomoda de eu perguntar, por que vocês terminaram? Ela parecia uma boa garota, não fazia festa, não levava gente no apartamento. Ela nem fazia barulho.

Renato falou rápido, querendo mudar de assunto. – Ela tinha feito uns negócios, no passado, algo que nenhum homem pode perdoar. Coisas que ninguém pode passar por cima.

Eu decidi oferecer de novo o uísque e ele aceitou. Deu um gole e continuou. – Disse que foi para sobreviver e que fez por pouco tempo, quando saiu da casa dos pais. Mas que diferença faz, se é pouco, muito? Imagina que ela tentou argumentar. Depois pediu para eu a perdoar e disse que me amava. Imagina que eu podia amar ela depois disso? Eu só queria que ela me deixasse em paz.

Ele deu mais um gole na bebida e a devolveu. Depois disso eu não precisava saber de mais nada, já tinha uma idéia do que tinha acontecido.

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