terça-feira, 16 de junho de 2009

UM OLHAR ENIGMÁTICO

As conexões de internet no Paraguai são muito ruins. Consultar um simples e-mail é um ato de paciência e controle do temperamento. A vontade é de socar o único computador do hotel que não oferece nenhuma velocidade. Apesar disso, o tédio e a curiosidade me fizeram pesquisar um pouco mais da história de San Bernardino. Não havia muito, a não ser um link sobre criminosos de guerra nazistas que tinham fugido para a América do Sul. Fiquei surpreso ao saber que até o carrasco Mengele tinha passado algum tempo na cidade. Desliguei o computador, mas fiquei com a história na cabeça.

Não demorou muito para eu lembrar da mulher que passeava com seu pai à beira do lago. Divaguei e imaginei o velho fugindo do julgamento de crimes de guerra, escapando de Berlim para a pacata San Bernardino. O pai de Ana tinha uma expressão de superioridade em seu rosto, mas não era nojo, era reprovação à cultura local. Uma cultura que eles não achavam adequada aos seus modos civilizados, nórdicos, puros, ou qualquer outra bobeira racial.

Ana ainda me intrigava, seu olhar era poderoso demais para ser esquecido. Ele penetrou em mim e ficou guardado. Antes de sair desse lugar, gostaria de conversar com ela, ouvir sua voz. Será que seria tão poderosa quanto seu olhar?

domingo, 14 de junho de 2009

PROCURANDO POR UMA NOVA VIDA

Os dias parecem mais longos em San Bernardino. Faço exercícios, leio e dou longas caminhadas em volta do lago, porém estou sempre entediado e com tempo sobrando. Tento matar as horas de todas as formas, mas elas resistem. Procuro arranjar assuntos com os funcionários do hotel e até com estranhos na rua, só para não enlouquecer, no entanto, não se pode conversar para sempre sobre as futilidades do cotidiano.

Estive pensando em me mudar depois de uma conversa que tive com Benites. Eu liguei só para bater papo e esquecer do marasmo, mas ele acabou revelando um telefonema que poderia mudar minha vida. O coronel recebeu a ligação de um boliviano que representava o departamento de Santa Cruz, uma região rica e separatista da Bolívia. Ele disse que o homem lhe ofereceu um trabalho para treinar a militância oposicionista ao presidente Evo Morales. Os governantes do departamento pensavam alto: milícias armadas e até o assassinato do chefe de estado.

Benites recusou a oferta, por ser muito perigosa, mas eu me ofereci para o emprego. Ele achou graça, mas quando percebeu que eu falava sério, tentou me dissuadir. Avisou que era arriscado demais e que os golpistas estavam destinados ao fracasso. Eu insisti. O coronel me aconselhou: - Vargas, você deve ter enlouquecido depois que ficou velho. Justo você, que sempre soube apostar nos vencedores. Eu te digo a verdade, esses golpistas vão se dar mal e se te pegaram junto com eles... Aproveite o resto de sua vida, fique em San Bernardino.

Não me importei com seus avisos e pedi que ele me arrumasse o emprego. Benites, contrariado, concordou em me ajudar. Prometeu ligar quando tivesse novidades.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

CAMINHANDO PARA O LAGO


A idéia de morrer nesse lugar, se tornou mais triste após um acontecimento. Estava conversando com o gerente do hotel, na frente da hospedaria, quando uma bela mulher conduzindo um idoso em uma cadeira de rodas passou por nós, rumo ao lago. Os dois pareciam estrangeiros, mas ela dirigia o velho pela rua com familiaridade, como se fizesse o caminho há muitos anos. Quando os dois desapareceram na curva, rumo ao lago, o atendente fofocou a história da mulher e de seu pai. Eram alemães que chegaram depois da segunda guerra mundial, procurando abrigo entre os colonos germânicos locais. A família não morava muito longe, mas era discreta e poucas vezes veio ao hotel. O velho era médico e clinicou na região por muitos anos até sua mulher morrer de câncer. Depois da tragédia, ele e sua filha se tornaram reclusos. O gerente comentou gracejando: - Eles reapareceram depois que o pai ficou velho demais para andar. Ele resolveu se mudar definitivamente para San Bernardino para morrer, mas nunca morre. È um vaso ruim.

Com um sorriso malicioso, o gerente mostrou sua animosidade com a família. Eu percebi, mas preferi não entrar no assunto e continuei a conversa em outra direção até ele resolver ir trabalhar. Eu fui até o lago, esperando ver a mulher novamente. Encontrei o velho e sua filha calados, observando as belezas do lago em silêncio. Ela me viu chegar e, nesse instante, trocamos olhares. Fiquei disfarçando, esperando que algo acontecesse. Tive a sensação boba de que algo mágico poderia acontecer e que talvez, ela falaria comigo. A mulher tinha belos olhos azuis, profundos e misteriosos. Um longo cabelo louro e talvez 50 anos. Eu esperei, mas ela virou a cadeira de rodas do pai e foi embora. Eu continuei observando o lago.

Houve uma época em que a felicidade, mesmo no meio da violência, me parecia possível. Agora, velho e repousando em um lugar pacifico, nunca fui tão descrente da alegria. Estou sozinho, exilado e com uma saúde de ferro. Nem a morte quer me fazer companhia.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

SOSSEGO MORTAL

O hotel em que estou hospedado é muito interessante. Foi construído em 1888 e até seus móveis guardam muitas histórias. O atendente, em um momento de descontração e tédio, me mostrou a curiosa atração da suíte de lua de mel da hospedaria: um armário onde os casais de várias gerações gravaram juras de amor. O móvel está todo retalhado, com inscrições até dentro das gavetas. Passados tantos anos, muitos dos casais eternizados já estão mortos, ou separados, porém seu amor ficou gravado na madeira, para os supersticiosos das novas gerações.

O atendente também mostrou as fotos da família que construiu o hotel. Eram alemães que ganharam muito dinheiro no Paraguai e resolveram investir no sossego que o lugar podia oferecer. Os paraguaios gostaram da idéia e começaram a construir casas de veraneio no lago, junto às casas dos alemães. Seguiram o progresso e a suposta civilização. No entanto, as fotos me chamaram atenção foram as de uma mulher, loira e alta, que posava ao lado de aviões, armas e tigres. Uma deusa nórdica perfeita, descendente de alemães, mas nascida no Paraguai. Segundo o atendente, ela foi enfermeira durante a guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia, e também pilotou aviões e criou tigres. Ele disse que a mulher aventureira enlouquecia os homens, porém nunca aceitou ser controlada. Morreu sozinha, abraçada com seus dois tigres de estimação. Perguntei ao atendente: - Ela experimentou uma vida plena, era livre, mas será que foi feliz? Ele respondeu sorridente: - Devia ser, porque morreu louca e sozinha, mas ainda sim, cheia de dinheiro...

A história dela me parecia familiar demais e vi minha vida alinhada com a sua. Será que também morrerei sozinho e louco, nesse lugar pacifico e belo, recebendo uma pensão pelos meus tempos de serviço na inteligência brasileira?

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O HOTEL DOS ALEMÃES


A viagem para o balneário não foi longa. Peguei um ônibus na rodoviária de Assunção e um táxi velho até o hotel, à beira do lago. O coronel Benites me recomendou uma hospedaria muito antiga no balneário. Existe desde o final do século 19, quando a região ainda era dominada por colonos alemães. O hotel tinha a arquitetura germânica e seu nome desenhado em letras góticas. O clima nublado, a vegetação e o ar me lembraram o bucolismo rural da Europa. Os alemães encontraram um belo esconderijo neste lugar, um final de mundo, escondido no meio de uma floresta.

Já estou aqui há alguns dias, já instalado e com algum reconhecimento da região. San Bernardino é um balneário para os ricos de Assunção. No verão eles lotam o lugar, cheio de mansões e restaurantes da moda. Mas agora, no nublado inverno paraguaio, ninguém aparece e os hotéis e índios, que ficam vendendo bugigangas para os turistas, ficam à toa. O lugar, apesar do atual clima, é bonito. Muito calmo, tanto que à noite, eu posso ouvir as ondas do lago quebrando nos barrancos e os insetos fazendo barulho no mato.

Desde a minha fuga de São Paulo, não me sentia tão seguro. Benites estava certo, a capital poderia me denunciar. Aqui escondido, longe da agitação de Assunção, me sinto protegido, guardado pela distância com a civilização. Tão distante que às vezes parece que o tempo para e os dias não passam nunca. Confesso que estou um pouco entediado e logo terei que me ocupar com algo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O PECADO DOS OUTROS


Foi a providência que me fez encontrar com o coronel Benites, dirigindo um táxi em Assunção. Uma noite, voltando de um bar no centro da cidade, peguei um táxi rumo ao meu hotel. Falando um espanhol tranqüilo, o taxista moveu o carro. Conversamos um pouco, até que reconheci sua voz. Quando ele se virou, tive certeza que era o coronel que eu tinha conhecido durante os anos do Condor na América do Sul. Benites me reconheceu e ficou alegre com o encontro. Enquanto ele me levava ao hotel, lembramos dos velhos tempos e especialmente de uma viagem a Buenos Aires nos anos 70. Naquela época, os serviços de inteligência dos países sul-americanos cooperavam e abatiam, um por um, os grupos comunistas da região. Caíram todos, até os que não eram a favor da violência.

Na época do regime militar de Stroessner no Paraguai, o coronel vivia confortavelmente com sua família em Assunção, sendo bem pago para atuar no combate aos inimigos do ditador. Quando militares derrubaram o governo, Benites percebeu que Stroessner não iria sobreviver e por isso, resolveu ajudar os golpistas. Mas ele não acabou sendo recompensado pelo ato, como me contou: - Pensava em ser general, viver tranqüilo o resto da vida. Uma boa aposentadoria e uma casa no interior.

Infelizmente sua traição compensou e os golpistas resolveram o afastar. Os militares paraguaios ofereceram uma dispensa honrosa e sua aposentadoria, como coronel. Hoje em dia, ele me explicou, dirige o táxi para terminar de criar os filhos e também para fugir das cansativas conversas da esposa. Quando chegamos ao meu hotel, o coronel saiu do carro para apertar minha mão. Não cobrou a corrida e me deu um cartão seu, para caso eu precisasse de alguma coisa. Antes de partir, disse, baixinho: – Se está aqui para se esconder, está fazendo errado...Vá para longe, meu amigo. Na cidade seus inimigos ainda podem encontrá-lo. Devia pensar em um lugar calmo, como San Bernardino.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

RECOMEÇO

Tenho medo das noites neste país. São calmas demais, sem trânsito. Aqui, o silêncio noturno inspira reflexões e traz a tona memórias antigas. Mesmo em Assunção, onde me escondi por quatro meses, tinha essa mesma impressão do Paraguai. A capital é uma cidade agitada, mas ainda assim sua noite é serena, reflexiva. O tempo parece cessar.

Aqui em San Bernardino, as noites são piores. Estou à beira do lago Ypacaraí cercado de árvores, silêncio e bucolismo. A paisagem e o tédio convidam as lembranças, mas tudo que quero é esquecer e recomeçar uma nova vida, livre do passado. Quem me recomendou a mudança foi um velho amigo que encontrei por acaso, nas ruas da capital. Ele me aconselhou a vir ao balneário de veraneio San Bernardino, pois o inverno já chegou ao Paraguai e, nessa época do ano, as casas da região ficam esquecidas, esperando pelo próximo verão. Seria um lugar tranqüilo, onde ninguém me reconheceria.

Eu decidi aceitar o conselho e me afastei da capital. Arrumei minhas malas e vim para o balneário procurando me esconder melhor, mas não sabia que aqui estaria totalmente a mercê de minhas lembranças. Tenho medo das noites no Paraguai porque, com elas, vem a solidão.